Interpretação filosófica de O ovo e a Galinha de Clarisse Lispector


https://youtu.be/XbFwJfdZ3eg

Interpretação filosófica de O ovo e a Galinha



Considerações iniciais.

Por: Anaor Terris Rodrigues

     Talvez por preguiça de ficar horas lendo e até mesmo pela lentidão que leio por eu ser lento mesmo ou porque estes tipos de textos pedem uma leitura cuidadosa e portanto demorada, tenho preferido ler logo no início, os textos mais difíceis de autores mais herméticos. Quando digo "de autores" me refiro a dois autores complexos. Deste modo resto ficará mais fácil de encarar depois (ou não). 
     Encantador os textos de Clarisse são, mas isso é o que menos importa por tratar-se da minha opinião pessoal. Tive contato com os textos de Clarisse inicialmente ao buscar na internet algo como "a melhor escritora brasileira" a melhor mulher escritora ou algo assim, não sei. E talvez em um nível mais inconsciente o nome Lispector, também instigou minha curiosidade. Mas antes de chegar no conto "O ovo e a Galinha", o que me arrebatou para um admirador de Clarisse, foi uma frase solta, a qual imediatamente me identifiquei profundamente, que foi esta: "Não tenho medo de noites tempestivas, pois também sou o escuro da noite."  Eu poderia fazer uma postagem só com a interpretação desta citação e talvez ainda o farei, mas por enquanto "ficarei com o ovo". 
     Estou trabalhando também para fazer uma postagem somente com as melhores citações de Paixão segundo G.H. neste blog. 
     Essa interpretação tem uma pegada mais filosófica e quase nada literária, já que esta não seria a minha área e as interpretações disponíveis, em sua maioria não são filosóficas, então não estarei saturando o tema. A verdade é que só fiz esta interpretação porque em certo momento, cheguei a ver "O ovo e a galinha" como o resumo de tudo o que aprendi em filosofia, por ser complexo, por ter me despertado curiosidade ouvir ela dizer que nem ela mesma entendeu bem este conta e o considerava um de seus melhores. Claro, também porque foi um dos únicos textos literários que realmente  me encantei com a forma de escrever e porque não me atraio por textos com enredos e neste o enredo é o que menos interessa. 
     O ovo e a galinha, é um conto de título simples, mas seu teor é além de poético e portanto belo, é também, mesmo que não tenha sido a intenção principal da autora, de uma finíssima filosofia, que nos arremete a um abismo do pensamento. 
     Se você não caiu neste Blog por causa do vídeo no Youtube, sim há um vídeo meu com leitura dramatizada de "O ovo e a Galinha". Por fim, devo dizer que o texto deste blog, não está acabado, pois não interpretei todo o conto e isso devido ao seu tamanho mesmo, além de que as ideias não estão organizadas de forma definitiva. Faltam agrupá-las melhor,  ocultar e acrescentar partes. Se eu fosse postar somente após o acabamento final, talvez nunca o fizesse. 


interpretação de "O Ovo e a Galinha em um prisma filosófico.


"Vejo o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo.” O que pode-se entender por ovo é aquilo que é o grande mistério de qualquer objeto e o entendimento sobre este. Talvez seja este o sentido mais profundo de ovo. Mas ao mesmo tempo e com certa predominância no sentido de ovo, há referência ao objeto ovo mesmo. Quanto ao olhar, deixa em aberto preliminarmente a diferença entre ver e olhar. Por exemplo um olhar apaixonado é diferente de friamente ver uma banana na fruteira. Um só olhar, pode significar também a irrepetibilidade de qualquer fenômeno no mundo, que tudo é único e inédito, até o olhar. E também irá dar suporte que devido ao tempo, cada olhar é único, pois toda ação ficará no passado e será única.
Não se pode estar vendo um ovo, pois na alma humana em mentes mais “apuradas” (talvez é o que Clarisse chame de “os iniciados” embora ela mesma desfaça esse conceito que é meramente literário), é que “ver” algo é simplesmente um absurdo. Não poderíamos estar vendo um ovo. Ver algo é tão complexo que parece impossível estar vendo algo. O ovo, o mundo, a existência e qualquer outra coisa são por assim dizer um absurdo. Uma pequena história de Clarisse explicita esse modo de sentir as coisas: “Era uma vez um pássaro. Meu Deus!” E também não se pode estar vendo um ovo por causa do tempo. O fracionamento infinito que o tempo causa nos objetos, faria ser impossível ver algo no presente. 
     “Mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios.” Há uma expansão do ponto de vista. Chama-se a atenção para a grandeza do tempo. Considera-lo de modo expandido para além do tempo da existência pessoal. É uma fala expandida em relação a autora e também considera as gerações de ovos e pessoasbem como todo o trajeto de coisas que existiu para se chegar a possibilidade de um olhar ver um ovo.
"No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo" Aqui volta a falar do efeito do tempo no objeto presente e também dá suporte ao que será citado depois, de que só quem tiver visto o ovo, poderá vê-lo. É porque ver depende de saber ver. Ver não é faculdade do olho, mas de um processo de aprendizado entre o olho e cérebro e de uma tendência de associarmos o objeto visto com algo familiar e conhecido, porém no caso do ovo quase sempre ele é familiar, mas ainda assim precisa de uma “familiarização” ainda que primitiva e de infância, no processo ver envolvendo olho e cérebro. Por isso ela diz – "Só vê o ovo quem já o tiver visto. Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido– Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo.” Um apelo ao sentimento, um modo de escrever para mexer com a emoção com “tarde demais”. Aqui temos um modo ainda mais agressivo de reforçar o que foi dito sobre o tempo. Tarde demais. Viu, acabou, o instante, o olhar a visão se foram, é passado. Ver algo, é deixa-lo no passado. E sobre ver o ovo ser a promessa de um dia vê-lo, me parece algo sobre o entendimento, o conhecimento humano limitado, mas ainda assim um conhecimento. O primeiro ver, refere-se a um mero ato dos sentidos, o segundo ou seja, da promessa de um dia ver o ovo, refere-se a entender o que é ver, o que é a coisa vista ou de chegar a entender alguma coisa. É como que se o do “mero sentido visão” já fosse um primeiro passo para entender algo um dia, o que é expresso como “promessa de um dia chegar”.
Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento.” Parece haver aqui uma singela conceituação de pensamento. Pensar é como um olhar curto e sem divisão. Associa então o pensamento com uma imagem, mas desde que indivisível. De fato há essa associação, com a faculdade de pensar, que é formar uma imagem na mente. É como que pensar fosse uma imagem muito semelhante aquele que temos quando visualizamos uma imagem na mente. A diferença é que é indivisível. Talvez aqui haja certa menção à forma empirista de conhecer, que as ideias só entram na mente via sentidos e que estes poderiam ser fracionados até serem indivisíveis. A mente é que formaria associações complexas. E por fim há a dúvida se há pensamento e por fim a afirmação de que não o há, o que torna a conceituação de pensamento algo banal ou talvez contraditório. Há correntes por exemplo, que afirmam que pensar é se comportar, não sendo portanto uma atividade abstrata, mas meramente de ação. Podemos associar “há o ovo” e não o pensamento, com a corrente fenomenológica, onde assumimos o pensamento como consciência, mas como consciência de algo e isso quer dizer que não há consciência, o que há é o algo, pois a consciência é só consciência do algo e além disso nada. O ovo e sua solidez são muito mais “reais” do que este suposto “pensar” no ovo, tanto que nem existe este pensar e só as coisas que são pensadas ou que fazem esse suposto pensar.
Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora.” As entrelinhas de Clarisse surpreendem. Quando achamos que estamos partindo de algum lugar e que há uma esperança de entender algo, por exemplo, havíamos partido do olhar para o objeto, ou se preferir da relação entre sujeito e objeto que se dá inicialmente pelo sentido da visão, há um desdém pelo próprio olhar que cultivávamos desde o início talvez como um esperança. Ou seja ato de olhar também continuará banal e totalmente insuficiente. O mistério continuará independente de olhar. Aqui há uma expansão da coisa para além de um dos principais modos humanos: o de ver o mundo. Além disso, depois da coisa vista, haverá outras complexidades existenciais envolvidas, mesmo que somente no âmbito humano onde aquele olhar não será mais útil. Por exemplo quando mudamos de objeto olhado, como não nos concentramos mais no olhar, mas em outro ato humano qualquer, ainda que estejamos de olhos abertos. O olhar servirá por alguns instantes para um objeto particular e logo deixará aquele e se voltará para outros objetos. Por fim, jogar fora o olhar, traz novamente a importância do olhar ao compara-lo com a própria vida, talvez aqui significando mas não limitando o olhar para a pluralidade de coisas. Depois de morrer ou talvez transcender, não precisará do olhar. Joga-se o olhar fora como instrumento utilizado na vida em que depois não precisará mais. Joga-se a vida, joga-se o olhar fora, afinal. Qual é a importância do olhar para a coisa na sua realidade última mais profunda plenamente entendida? Provavelmente nenhuma.
“O ovo não tem um si mesmo”. Individualmente ele não existe.
um pouco na contramão do que vinha sendo dito, a impressão que será trazida a tona a questão do si mesmo, nem que para negá-lo, mas em seguida faz uma relação inusitada com a não existência do si mesmo, a de que individualmente ele não existe, o que poderia se supor que de modo não individual ele poderia existir, ou seja só existe o ovo porque alguém o percebe ou o ovo só existe como uma ideia universal como o ovo do mundo das ideias de Platão.
Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro (...) Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o seu silêncio. Quando morri, o tiraram de mim com cuidado. Ainda estava vivo.” Em uma forma surpreendente de dizer “quando eu era antiga” o que supõe que falava muito antes de existir e que não havia um eu, mas este se mantém com a conexão presente da ideia, a de que um ovo pousou no seu ombro. A matéria que a constitui hoje pode ter sido parte de outra pessoa e que algo parecido com um ovo (aquilo que o gera), pousou em seu ombro. Ou mesmo, em sentido menos literal, a matéria (átomos e moléculas) que hoje são aquele ovo particular observado) são os mesmos que em eras passadas não necessariamente pousou no ombro de um homem ou mulher antepassado, mas entrou em contato físico de alguma forma.
Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio.”
Esta frase está aos moldes daquele outra que diz que só vê o ovo quem o estiver visto. Mas vai além. O modo verbal “visse” quase dá um tom de predição profética. E ainda assim, para ver o que quer que seja, antes tem que ver o mundo. O ovo é parte do mundo e sua visão poderia sim estar incluída enquanto se via o mundo para poder depois ver qualquer outra coisa, que também será do mundo, mas que se destacará para visão. E quanto a “como o mundo o ovo é obvio, o menos importante é a semelhança sonora de ovo e óbvio. De todos as dúvidas que até agora tivemos sobre o ovo, e portanto sobre o mundo estes não deixam de ser óbvios. De impossível ver, fomos para a obviedade aos moldes de Tomás de Aquino, onde é obvio a existência das coisas e de que o objeto existe e isto é tão real quanto parece ser.
O ovo não existe mais como a luz de uma estrela já morta”
Esta frase é válida tanto no mesmo sentido da atribuída para as já mencionadas que o ovo não existe, que não se pode estar vendo um ovo, como no sentido estritamente ótico, ou seja o mesmo efeito que o atraso que há entre a existência de algo muito distante e a demora para que sua imagem chegue até os olhos, também há em objetos próximos como o ovo. Ainda que insignificante, para a impressão do instante de visualizar, em que a disparidade entre imagem do objeto próximo e ele mesmo, devido a velocidade da luz, ele ocorre. Então, mais uma vez, o que vemos nunca poderá corresponder a um perfeito instante presente, e somente ao seu passado, mesmo que esteja a um milímetro do olho.    
          “O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou.” Não pode-se afirmar que ao escrever isso, Clarisse pensou em física quântica, mas também não se pode negar. Mas analisando do ponto de vista físico quântico, faz todo sentido. Nada toca em nada, no mundo atômico. A barreira é uma repelência de cargas de partículas e átomos. Mas ela insiste que “quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo dele”. Talvez isso se refira em firmar uma perspectiva, no sentido de dizer que um avião nunca pousa, mas a pista do aeroporto é que fica embaixo do avião. Nesta perspectiva o ovo também nunca estará na mesa, que é a coisa que estará embaixo dele. A intenção é fazer ver as coisas em perspectivas fora do comum e com forte conexão com o que se segue.
Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo”. Olho o ovo com atenção para não quebrá-lo. A primeira frase parece ter um sentido estético provocador de certo prazer de ser lido, mas que não há interpretação objetiva possível, assim como na passagem “caminhei de leve para não entornar o seu silêncio” mas em “Tomo o maior cuidado de não entendê-lo” Há uma ligação entre a preocupação de não quebrar e com “tomar o maior cuidado” embora a referência principal pareça ser a do entendimento sobre o mundo mas mesmo assim, de que tal entendimento é impossível, ainda que almejado. As sentenças “caminhei de leve”, “para não quebra-lo” e “tomo o maior cuidado” referem-se a obviedade da fragilidade do ovo. Não haveria porque dizer que o ovo é frágil, que temos um certo cuidado de manipulá-lo para evitar que ele se quebre, pois este é o aspecto óbvio, mas com a interação destas com as outras partes da frase, há um adiantamento entre o extremamente óbvio e o extremamente complexo ou indecifrável.
Entendê-lo não é o modo de vê-lo.” Sabiamente parece ter sido invertida a frase para torná-la elegante, onde se poderia querer dizer que ver não é um modo de entender. Mas esta inversão parece ter fixado seu significado da forma que foi escrito. Parece ter atribuído exatamente o sentido que foi escrito, que entender não é modo de ver. De que modo olhamos para coisas? Desconfiados, admirados etc., mas entender não é um modo possível de olhar.
De modo surpreendente, indo e voltando, invertendo sentidos, o que antes se falou de pensamento, agora “Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto.” O que novamente abre nova perspectiva e parece diferente do que foi dito da relação entre ver o objeto e pensar, dando novo sentido. Parece agora inverter do empirismo para o racionalismo, mas isso não fica explícito nem mesmo tentado encaixar em um racionalismo ou excluindo de um empirismo.
Será que sei do ovo? Esta pergunta, abre a possibilidade da resposta mais simples. É claro que se sabe sobre o que se vê. Mas é uma pergunta. Pode ser que não se saiba, apesar de ser “quase certo que sei. Assim: existo, logo sei.” Para mim, este trecho parece simplesmente genial. Um dos tantos novos estilos cartesianos (que não são cartesianos), mas que sem exagero abriria possibilidade de um ensaio filosófico. Um dos modos ontológicos do homem ser, é saber. Isso não é exagero, é mais ou menos uma definição de homem, aquele que sabe. Mas isso coloca o saber, como algo ultrapassado, ou seja ultrapassa o próprio entendimento de saber. Só sei porque existo ou existo porque sei. Parece que só o existir ou o ser é o que realmente sobra do “quase certo que sei. Assim: existo, logo sei” até mesmo pela incerteza colocada no saber com o “quase certo”.
“O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo é o ovo propriamente.” Ao menos aqui temos uma esperança que esse saber existe apesar de não se saber o que é. Se o não sei da coisa é o que importa, ao menos supõe-se que o que importa deve existir, que é a coisa propriamente. Isso dá entender que o que sabemos é o mínimo, algo irrisório, porque se não sei o que importa, ao menos o que não importa se supõe que eu saiba (ou não), mas o que não importa, a final não importa.
O ovo é uma exteriorização.” Essa é também uma das infinitas perspectivas ressaltadas. É mais uma amostra que as perspectivas são infinitas. Faz referência ao lado de dentro e de fora fazendo pensar em como algumas coisas se formam com esse modo, ter um lado de dentro, ter um interior e um exterior, assim como por exemplo há o interior de uma casa e seu exterior. Porém dizer que o ovo é uma exteriorização seria atentar para essa qualidade das coisas, porém de modo invertido, como se o interior fosse o exterior ou que por algum modo está a mostra o seu exterior, como que se referisse a coisas que não tem interior e exterior, (como o vento? Ou como algumas ideias abstratas como amor, bem e justiça) enfim, salta aos olhos, à percepção de que no ovo há um exterior, como se fosse projetado como um lado para ficar a mostra, a exposição e outro para ficar reservado a si mesmo, ou seja o interior do ovo. Esta frase tem uma conexão com esta outra que consta no início de outra obra de Clarisse:  “a aproximação, do que quer que seja, se faz atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar” e também tem conexão com esta outra passagem: “ a galinha tem muita vida interior. Para dizer a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior” é uma conexão oposta, pois a galinha tem um interior e um exterior, mas a perspectiva muda novamente como oposição a ideia ou como outra percepção pois a referência agora, não é um objeto como um ovo, mas a vida, que é tratada em outro âmbito em alguns momentos, ou seja como mais profundo do que um objeto que “tem” vida. Esta conexão pode ser feita com a citação: “viver é o máximo que posso chegar” que consta no livro Paixão segundo G.H.
“O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado.” Seguindo exatamente a mesma linha das perspectivas, temos mais duas. Há um hiperfoco no ovo a ponto de desnudar a cozinha e depois de tornar a mesa um plano inclinado, pois o que importa neste hiperfoco é a inclinação na forma do ovo. Porque a final, é a mesa que tem que ser reta e o ovo inclinado? A planicidade da mesa é desconsiderada não porque não a seja, mas para ressaltar a inclinação do ovo. Porque seria o ovo estar sobre a mesa e não a mesa sobre o ovo, ainda que o ovo fique “em cima” da mesa. E por fim, plano inclinado, não seria uma contradição? Dependendo de quão perto se avalie, o ovo poderia aparentar planicidade, assim como a terra tem circularidade, parecendo ser plana. Mas talvez isso soe óbvio e falar da inclinação causada no plano, por algo inclinado, seja mais interessante, no sentido de que fisicamente não haja contradição em um plano ser inclinado, pois o plano do universo, poderia ser curvo em uma “quarta dimensão”, e além disso a gravidade provoca curvaturas no espaço de modo que coisas absolutamente planas poderiam ser curvadas se observada como um todo. No caso da mesa, que está no universo, por mais que ínfimo, esse plano acompanha as distorções gravitacionais. Cada ponto de uma reta que no todo do espaço tempo, que está contida, é curva, deve então também possuir uma fração de curvatura, caso contrário não poderia ser curvada de modo algum ou que retas são curvas ou ainda que não existem retas perfeitas. Mas é difícil saber se Clarisse tenha se referido a isto.
O ovo é a alma da galinha”. Conectando a filosofia, é possível lembrar das ideias de dois filósofos. Shopenhauer a Aristóteles. Em Shopenhauer, o ovo é um dos objetivos da Vontade, aquela vontade metafisica, irracional e cega que está por traz de tudo que tudo deseja, faz o que é desejo ser buscado. Em outras palavras, o desejo por qualquer coisa, a origem misteriosa do desejo, a final não somos livres para desejar, sobre obrigados a querer algo, é uma faceta desta vontade avassaladora, que faz com que o mundo se realize como se realiza.
É como que se o universo tivesse uma vontade que faz a vida querer viver, não somente eu querer viver ou minha vida querer ser vivida, mas a vida de tudo o que é vivo. A vida quer viver e a morte do indivíduo não abala em nada a realização da vida em viver. A vida não se importa em estar neste ou naquele corpo, o que ela quer é viver em vários corpos.  
A gravidade querer “gravitacionar”. Não se trata de personificação do universo, nem de ele tenha consciência de si. A vontade é fundamento, é avassaladora e faz tudo acontecer tanto no nível vontade humana, tanto quanto todas as outras coisas que acontecem no universo. A vontade só tem vontade. Se manifesta no mundo em infinitas facetas com os infinitos desejos humanos, mas com as infinitos fenômenos. Então a vida (individual ou vida geral) é uma manifestação desta vontade.
Mas a vida individual não tem importância para a vontade (que não sabe o que é importância, pois nada sabe, apenas é vontade. Ela não é vontade de determinada coisa, mas “vontade de” e do tudo. As galinhas individuais têm suas vontades limitadas aos seus instintos. Mas o plano maior da vontade (que não sabe o que é um plano e de fato não tem um pois ela não é um plano, é uma vontade geral), não é a preocupação com a galinha individual. Percebemos isso ao analisar o mundo da forma limitada da imediaticidade.
A vontade realiza gerações de galinhas até que estas gerações se modifiquem substancialmente ou se acabem. Mesmo que toda vida se extinguisse, a vontade iria persistir prosseguindo na realização de infinitos planetas desolados, explosões de estrelas, galáxias, buracos negros e tudo o que mais tiver. O fim de um destes, não afeta a grande vontade como um todo, que aliás deseja também o fim de coisas singulares e individuais em benefício de outros singulares e individuais que formam um todo que vai nos elementos singulares se extinguindo, se modificando e mantendo um todo sempre desejante que algum tipo de coisa mais geral continue temporariamente em algo singular. Sempre o que está um nível acima do individual e quanto mais próximo se aproxime de um algo maior que transcenda a um individual, terá um pouco mais de importância, o que quer dizer duração. Pulamos a etapa atômica e molecular, as células são formadas de indivíduos que morrem a cada segundo e são substituídas por outras. A individualidade das células quase nem contam. Elas mantém um sistema biológico que é algo mais geral que células individuais, mas também são sistemas individuais que por sua vez compõe um corpo individual este sim com um pouco mais de importância. Mas o corpo individual, ou seja uma pessoa em particular, perante a sociedade terá menos importância. Sociedade é uma ideia mais geral.
Porem sociedade, no sentido de humanidade, também acaba sendo um algo individual. Ela compõe uma pluralidade com as outras gerações de sociedade. E gerações de sociedade de todos os tempos até sua extinção compõe um elemento individual do universo, ou seja sociedades é somente um elemento do universo. A Terra onde estas sociedades existiram, terá muito mais importância e é um corpo flutuante tão complexo, tão cheio de coisas, composto por tantas coisas individuais e portanto um algo poderosamente plural e geral.  Isso terá muito mais importância.
Então não importa a galinha e sim o ovo, que é a próxima geração de galinha e é pelo ovo que se dará e se deu todas as gerações de galinhas. O que mais importa, a pessoa ou sua alma, a coisa ou “a alma da coisa”? se existir alma, evidentemente será a alma a mais importante. Então por isso que o ovo é a alma da galinha. O grande objetivo da galinha é o ovo.  Sua alma embora se manifeste também nos desejos individuais da galinha em um sentido aristotélico, a alma da galinha está instanciada nela mesma. O ovo é uma possibilidade de galinha, ainda que seja só por esta possibilidade que se dará as gerações de galinha.
A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo.
Continuamos a evidenciar a maior importância do ovo. Galinhas não são perfeitas e nem ovos, mas a importância o faz sê-lo certo, pois é o ovo o esperado.
[Ovo] como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. No espaço um objeto tem velocidade superior a de um projetil disparado. Mas estamos falando de espaço, colocando o ovo na bela paisagem espacial sobre o azul da terra. Aqui será permitido vê-lo como objeto espacial parecendo parado pela coincidência nas velocidades, sentidos e direções. Assim como uma estação espacial em órbita ou um satélite ao redor da terra parecem vagaroso ou parados, assim como galáxias distantes parecem tão fixas podem ser uma das coisas de movimento mais veloz.
– Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida, e eu preciso da gema e da clara.  ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. –
O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.

O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. – O ovo  esta sempre adiantado demais para a sua época. – Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos, A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “O rosto”, morre; por ter esgotado o assunto.

Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relação ao ovo, o perigo é que se descubra
sua veracidade e esta não é verossímil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não poder é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder
 Mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. Nossa vantagem é que o ovo é invisível.
E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo. Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível.
O ovo é o grande sacrifício da galinha, é seu sonho inatingível.
A galinha não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência dela. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso.
É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se salvaria como galinha, o que também não é garantido, mas perderia o ovo.
Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer.
Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade.
Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido, o ovo. –

 Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.
 A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que chamamos de “galinha”. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse.
Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo não se quebre dentro dela.
A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo.
. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradição de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedônia. A galinha Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha.
Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa.
Dentro de si a galinha não reconhece o ovo, mas fora de si também não o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossível.
De repente olho o ovo na cozinha e vejo nele a comida. Não o reconheço, A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele me foi adormecendo.

A galinha não queria sacrificar a sua vida. A que optou por querer ser “feliz”. A que não percebia que, se passasse a vida desenhando dentro de si como numa iluminura o ovo, ela estaria servindo. A que não sabia perder-se a si mesma. A que pensou que tinha penas de galinha para se cobrir por possuir pele preciosa, sem entender que as penas eram exclusivamente para suavizar, a travessia ao carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo.
A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria. A que não sabia que “eu” é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada.
A que pensou que “eu” significa ter um si-mesmo. As galinhas prejudiciais ao ovo são aquelas que são um “eu” sem trégua. Nelas o “eu” é tão constante que elas já não podem mais pronunciar a palavra “ovo”. Mas, quem sabe, era disso mesmo que o ovo precisava. Pois se elas não estivessem tão distraídas, se prestassem atenção à grande vida que se faz dentro delas, atrapalhariam o ovo.

Comecei a falar da galinha e há muito já não estou falando mais da galinha. Mas ainda estou falando do ovo.

E eis que não entendo o ovo. Só entendo o ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha própria vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado.
E ter apenas a própria vida é, para quem viu o ovo, um sacrifício., meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores.
Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo.
Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos
E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.

A todos os agentes são dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Não é o caso de se ter inveja pois, inclusive algumas das condições, piores do que as dos outros, são apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles também o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive é o nosso sacrifício para que o ovo se faça. Já nos foi imposta, inclusive uma natureza adequada a muito prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer.
Há casos de agentes que se suicidam: acham insuficientes as pouquíssimas instruções recebidas e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou publicamente ser agente porque lhe foi intolerável não ser compreendido, e ele não suportava mais não ter o respeito alheio: morreu atropelado quando saía de um restaurante.
Houve um outro que nem precisou ser eliminado: ele próprio se consumiu lentamente na sua revolta, sua revolta veio quando ele descobriu que as duas ou três instruções recebidas não incluíam nenhuma explicação.
Houve outro também eliminado, porque achava que “a verdade deve ser corajosamente dita”, e começou em primeiro lugar a procurá-la; dele se disse que morreu em nome da verdade com sua inocência; sua aparente coragem era tolice, e era ingênuo o seu desejo de lealdade, ele compreendera que ser leal não é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto.
Esses casos extremos de morte não são por crueldade. É que há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente não podem ser levados em consideração.






Para os que sucumbem e se tornam individuais é que existem as instituições, a caridade, a compreensão que não discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.

dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai
E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira função, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me dão como diária para facilitar a minha vida de modo a que o ovo se faça, pois esse dinheiro eu tenho usado para outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei ações na Brahma e estou rica.
A isso tudo ainda chamo de ter a necessária modéstia de viver. E também o tempo que me deram, e que nos dão apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilícitos e dores ilícitas, inteiramente esquecida do ovo. Esta é a minha simplicidade.

Ou é isso mesmo que eles querem que me aconteça, exatamente para que o ovo se cumpra? É liberdade ou estou sendo mandada?
Com o dinheiro que me dão, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiança? Mas é que ninguém sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que está traindo, e que termina acreditando na própria traição. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem é exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou é a traição mesmo.

Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha a marcha do grande tempo.
 Pelo contrário: parece que é exigido de mim que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma como justo. Eles me querem preocupada e distraída, e não lhes importa como. Pois, com minha atenção errada e minha tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se está fazendo através de mim.
O que me revela que talvez eu seja um agente é a ideia de que meu destino me ultrapassa:
Pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noção de que meu destino me ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho deles.
Mas de qualquer modo era só instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho não poderia ser mesmo meu. Já experimentei me estabelecer por conta própria e não deu certo; ficou-me até hoje essa mão trêmula.
Desde então, desde essa malograda experiência, procuro raciocinar desse modo: que já me foi dado muito, que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que os outros agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que não sabiam. E com as mesmas pouquíssimas instruções.
 Já me foi dado muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coração batendo pelo privilégio, eu pelo menos sei que não estou reconhecendo! Com o coração batendo de emoção, eu pelo menos não compreendo! Com o coração batendo de confiança, eu pelo menos não sei.
Mas e o ovo? Este é um dos subterfúgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. “Falai, falai”, instruíram-me eles. E o ovo fica inteiramente protegido por tantas palavras. Falai muito, é uma das instruções,
Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha adoração possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifício de esquecê-lo. Se o ovo for impossível. Então – livre, delicado, sem mensagem alguma para mim – talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta e de madrugada baixe sereno até a cozinha. Iluminando-a de minha palidez.




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