Paixão Segundo Gh, parte 1
O que resta de mim? Esse desejo de encontrar o que resta de mim,
quando a linguagem se esgotou...
Meus
pensamentos são fragmentárias, mesmo assim o mundo inteiro terá que se transformar para
eu caber nele.
Só uma grande coragem me leva a aceitar minha covardia.
E isso é tão
difícil que provavelmente vou arrumar um modo de me achar mesmo que isso
seja, de novo, a mentira que vivo. Quero ao menos estar pensando
que entendo.
O que é
Ser? É ir vivendo o que for sendo.
A vida não é o que eu pensava, como se antes
eu tivesse sabido o que era. Tudo foi apenas construído. não seria nada se eu
não sentisse.
Terei
que correr o sagrado risco do acaso.
E substituirei o destino pela probabilidade.
Havia aquela coisa latejando, que eu pensava era ser uma pessoa. É
Também é.
Não
sei dar uma forma ao que acontece. E sem dar uma forma, é como que
se nada existisse.
e se
a realidade é mesmo que nada existe? Quem sabe nada me aconteceu?
Só
posso compreender o que me acontece, mas só acontece o que eu compreendo, e o resto?
A visão de uma carne infinita é a visão dos
loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas
fomes - então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida
humanizada. Desculpa, é que Eu havia humanizado demais a
vida.
Devo
ficar com isso, mesmo que signifique uma verdade incompreensível? ou dou uma forma ao nada, e isto
será a visão da minha própria desintegração?
em
mim qualquer começo de pensamento esbarrava logo na testa.
Cedo,
fui obrigado a reconhecer, sem lamentar, os esbarros de minha pouca
inteligência.
sabia
que estava condenado a pensar pouco. raciocinar muito me restringia demais dentro
de mim.
Então
Como inaugurar agora em mim, o pensamento?
É que
talvez, só o pensamento me salvasse. Obrigatoriamente precisarei
enquadrar a monstruosa carne infinita e cortá-la em pedaços que sejam assimiláveis
pelo tamanho de minha boca e pela visão de meus olhos, já que inevitavelmente
sucumbirei a minha necessidade de dar
forma.
Então,
que pelo menos eu tenha coragem de deixar que essa forma se forme sozinha como
uma crosta que por si mesma endurece, a nebulosa de f o g o
que se esfria em terra.
Saberei
reconhecer na face comum de algumas pessoas que elas esqueceram e nem sabem
mais que esqueceram o que esqueceram
Esse sagrado esquecimento é um saber, que é a minha nova
ignorância,
Sou a causa grandiosa de um saber secreto que não sei mais qual foi e
sirvo a este segredo esquecido.
.
. Minhas
previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram não eram antecipações
da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados.
Até
que por horas, desisti. E, por Deus, tive o que não gostaria.
e pensava
que encontrar seria fértil como vales
fluviais. Não contava que fosse esse grande
desencontro.
Estou Tentando
dar a alguém o que vivi.
não
quero ficar com o que vivi por não saber o que fazer do que vivi,
Eu vi. Sei que vi,
porque não entendo. Sei que vi, porque para nada serve o que vi.
Vou ter que falar: não sei o
que fazer de ter vivido.
Toma o que vi,
Desculpa eu te dar isto, eu bem queria ter visto coisa melhor.
Eu queria
agora adormecer. Adormecer é uma pequena luta para não perder a consciência
e entrar num mundo maior, que é o sono, essa enorme ausência de forma. Acho que
por não ter coragem é que eu sonho.
Ir
para o sono se parece tanto com se por a beira do nada.
E essa
coisa sobre natural que é viver. O viver que eu havia domesticado, como dar a mão à mão mal assombrada do Deus,
Como imaginar um rosto se não sei de que
expressão de rosto preciso?
Logo que puder irei sozinho, e com horror.
Até que
o horror se transforme em claridade. Não a claridade que nasce de um desejo mas
a claridade natural do que realmente existe, e é essa claridade o que me aterroriza. Embora eu
saiba que o horror - sou eu diante das coisas.
um
dia não saberei me arriscar a morrer sozinho, morrer é do maior risco,
não
saberei passar para a morte e pôr o primeiro pé na ausência de mim - nessa hora última e tão primeira
começarei a morrer até poder aprender
sozinho a não existir,
Aquilo
que provavelmente pedi e finalmente, veio, no entanto, me deixou carente como uma criança que anda sozinha pela terra.
Tão carente que só o amor de todo o universo por mim, poderia
me consolar.
Será preciso coragem para fazer o
que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a
pobreza da coisa dita. E, porque não tenho uma palavra a dizer. Mas se
eu não forçar a palavra, a mudez me será
para sempre.
Terei que fazer a palavra como se
fosse criar o que me aconteceu. Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei
que criar sobre a vida.
Entender é uma criação, meu único
modo. Precisarei traduzir o desconhecido para uma língua que
desconheço, Falarei nessa linguagem sonâmbula, que se eu tivesse acordado nem seria linguagem.
tento mais uma reprodução do que uma expressão.
Cada vez preciso menos me exprimir.
Também isto perdi?
Eu me pergunto: se eu olhar a
escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? a lente não devassa a escuridão, apenas a revela ainda mais. E se eu olhar
a claridade com uma lente, verei apenas mais claridade
Enxerguei, mas estou tão cega quanto
antes porque enxerguei o incompreensível. A menos que eu
também me transforme no nesse incompreensivel que se reconhecerá.
Sei que
tudo o que estou falando é só para adiar o
momento em que terei que começar a dizer, sabendo que nada mais me resta a
dizer. Estou adiando o meu silêncio. A
vida toda adiei o silêncio. Mas agora
por desprezo pela palavra, talvez
enfim eu possa começar a falar.
Há três mil anos desvairei-me, e o
que restaram foram fragmentos fonéticos de mim.
Vi, e me assustei com a verdade
bruta de um mundo cujo maior horror é que ele é tão vivo que, para admitir que
estou tão vivo quanto ele, minha pior descoberta é que estou tão vivo quanto
ele.
Eu estava a um passo da descoberta
de um império. A um passo de mim. Eu ia me defrontar
em mim com um grau de vida tão primeiro que estava próximo do inanimado. No
entanto não havia nenhum indicativo de
que eu, ia existir.
nunca fui capaz de perceber as
coisas se encaminhando; todas as vezes que elas chegavam a um ápice, me parecia
com surpresa um rompimento, explosão dos instantes, com data, e não a
continuação de uma ininterrupção.
Não sei dizer o que eu era quando meu eu era um silencio, um algo não
existente, é o que não sei e nunca
soube.
Às vezes, olhando uma foto tirada
na praia ou numa festa, percebia o que aquele rosto sorridente me revelava: um
silêncio. Um fragmento de um instante de mim.
Ao olhar o retrato eu via o mistério.
viver não é coragem, saber que se
vive que é - e vou dizer que na minha fotografia eu via O Mistério.
só agora estou sabendo que nos
olhos sorridentes havia um silêncio como só vi em lagos, e como só ouvi no
silêncio mesmo.
Nunca, então, havia eu de pensar
que um dia iria de encontro a este silêncio.
Olhava de relance o rosto
fotografado e, por um segundo, naquele rosto inexpressivo o mundo me olhava de
volta também inexpressivo. Este - apenas esse - foi o
meu maior contato comigo mesma, minha ligação mais cega e direta com o mundo.
O resto era o modo como pouco a pouco eu
havia me transformado na pessoa que tem o meu nome. E acabei sendo o meu nome.
Vivi muito, quero dizer, vivera
muitos fatos. tive pressa de viver logo tudo o que eu
tivesse a viver para que me sobrasse tempo de viver sem fatos? de viver
Onde estava o meu destino maior?
um que não fosse apenas o enredo de minha vida.
eu me trato como as pessoas me
tratam, sou aquilo que de mim os outros vêem. Quando eu
ficava sozinha não havia uma queda, havia apenas um grau a menos daquilo que eu
era com os outros, e isso sempre foi a minha naturalidade e a minha saúde. E a minha espécie de beleza. Só meus retratos é que fotografavam um
abismo? essa coisa grande e vazia:
quem sabe, auscultando os objetos,
algo desses objetos me será dado e por sua vez dado de volta aos objetos. Talvez tenha sido esse tom de pré-clímax o que eu via na sorridente
fotografia malassombrada de um rosto cuja palavra é um silêncio inexpressivo,
todos os retratos de pessoas são um retrato de Mona Lisa.
A mesquinhez eu também a omito
porque a confissão me é muitas vezes uma vaidade,
Não é que eu queira estar pura da
vaidade, mas preciso ter o campo ausente de mim para poder andar., acho que
estou precisando de olhar sem que a cor de meus olhos importe, preciso ficar
isenta de mim para ver.
E é isso
tudo o que eu era? Quando abro a porta a uma visita inesperada, o que surpreendo no rosto de quem está me
vendo à porta é que acabam de surpreender em mim meu suave préclímax. O que os
outros recebem de mim reflete-se então de volta para mim, e forma a atmosfera
do que se chama: eu. O pré-climax foi talvez até agora a minha existência. A outra - a incógnita e anônima -
. Eu nascera sem missão, minha
natureza não me impunha nenhuma;, mas me organizara para ser compreendida por
mim, Um olho vigiava a minha vida. A
esse olho ora provavelmente eu chamava de verdade, ora de moral, ora de lei
humana, ora de Deus, ora de mim. Eu
vivia mais dentro de um espelho. Dois minutos depois de nascer eu já havia
perdido as minhas origens.
Para ter o que eu tinha eu nunca
precisara nem de dor nem de talento,
O mundo era um lugar. Que me
servia para viver
Da minha sala de jantar eu via as
misturas de sombras que preludiavam o living. Tudo aqui é a réplica de uma vida
que nunca existiu em parte alguma:
Tudo aqui se refere na verdade a
uma vida que se fosse real não me serviria. Real, eu não a
entenderia, uma vida provavelmente
me dava segurança exatamente por essa vida não ser minha: ela não me era uma
responsabilidade.
O leve prazer geral - que parece
ter sido o tom em que vivo ou vivia - talvez viesse de que o mundo não era eu
nem meu: eu podia usufruí-lo.
tudo aqui está entre aspas. Por
honestidade com uma verdadeira autoria, eu cito o mundo, eu o citava,
Quanto a mim mesma, sem mentir nem
ser verdadeira - como naquele momento em que ontem de manhã estava sentada à
mesa do café - quanto a mim mesma, sempre conservei uma aspa à esquerda e outra
à direita de mim. De algum modo “como se não fosse eu” era mais amplo do que se
fosse -
Eu era a imagem do que eu não era,
e essa imagem do não-ser: um dos modos mais fortes é ser negativamente. Como eu não sabia o que era, então “não ser” era a minha maior
aproximação da verdade: pelo menos eu tinha o lado avesso: eu pelo menos tinha
o “não”, tinha o meu oposto.
não sendo, eu me provava que - que
eu era.
; vi desde que nasci e não sabia,
não sabia.
a vida está me doendo, e não sei
como falar -
Olhei para baixo: treze andares caíam
do edifício. Eu não sabia que tudo aquilo já fazia parte do que ia acontecer
ali
fumando, como se estivesse no pico de uma montanha, eu olhava a vista,
provavelmente com o mesmo olhar inexpressivo de minhas fotografias.
Eu via o que aquilo dizia: aquilo
não dizia nada. E recebia com atenção esse nada, recebia-o com o que havia dentro de meus olhos nas fotografias; só
agora sei de como sempre estive recebendo o sinal mudo. Eu olhava o interior da
área. Aquilo tudo era de uma riqueza inanimada que lembrava a da natureza:
também ali poder-se-ia pesquisar urânio e dali poderia jorrar petróleo.
Eu estava vendo o que só teria
sentido mais tarde - quero dizer, só mais tarde teria uma profunda falta de
sentido. Só depois é que eu ia entender: o que
parece falta de sentido - é o sentido. Todo
momento de “falta de sentido” é exatamente a assustadora certeza de que ali há
o sentido, e que não somente eu não alcanço, como não quero porque não tenho
garantias. A falta de sentido só iria me assaltar mais tarde. Tomar consciência da falta de um sentido
teria sido sempre o meu modo negativo de sentir o sentido? Fora a minha
participação.
Mas algo da natureza terrível
geral - que mais tarde eu experimentaria em mim -, algo da natureza fatal saíra
fatalmente das mãos da centena dos operários práticos que havia trabalhado
canos de água e de esgoto, sem nenhum saber que estava erguendo aquela ruína
egípcia para a qual eu agora olhava com o olhar de minhas fotografias de praia.
O quarto
não era um quadrilátero regular: dois de seus ângulos eram ligeiramente mais
abertos. E embora esta fosse a sua realidade material, ela me vinha como se
fosse minha visão que o deformasse. Parecia
a representação, num papel, do modo como eu poderia ver um quadrilátero: já
deformado nas suas linhas de perspectivas. A solidificação de um erro de
visão, a concretização de uma ilusão de ótica.
Nos
corpos não estavam desenhados o que a nudez revela, a nudez vinha apenas da
ausência de tudo o que cobre: eram os contornos de uma nudez vazia, O traço era
grosso, feito com ponta quebrada de carvão. Em alguns trechos o risco se tornava duplo como se um traço fosse o
tremor do outro. Um tremor seco de carvão seco.
Sorri constrangida, estava
procurando sorrir: é que cada figura se
achava ali na parede exatamente como eu mesma havia permanecido rígida de pé à
porta do quarto
De encontro a uma das paredes,
três maletas velhas empilhavam-se em tal perfeita ordem simétrica que sua
presença me passara despercebida, pois em nada alteravam o vazio do quarto.
Como te explicar: eis que de
repente aquele mundo inteiro que eu era crispava-se de cansaço, eu não
suportava mais carregar nos ombros - o quê? - e sucumbia a uma tensão que eu
não sabia que sempre fora minha. Já estava havendo então, e eu ainda não sabia,
os primeiro
s sinais em mim do desabamento de
cavernas calcáreas subterrâneas, que ruíam sob o peso de camadas arqueológicas
estratificadas - e o peso do primeiro desabamento abaixava os cantos de minha
boca, me deixava de braços caídos. O que me
acontecia? Nunca saberei entender mas há de haver quem entenda. E é em mim que
tenho de criar esse alguém que entenderá.
minha
casa. Forcei-me a me lembrar que também
aquele quarto era posse minha, e dentro de minha casa: pois, sem sair desta,
sem descer nem subir, eu havia caminhado para o quarto. A menos que tivesse
havido um modo de cair num poço mesmo em sentido horizontal, como se houvessem
entortado ligeiramente o edifício e eu, deslizando, tivesse sido despejada de
portas a portas para aquela mais alta.
Embaraçada
ali dentro por uma teia de vazios, eu esquecia de novo
Abri um
pouco a porta estreita do guarda-roupa, e o escuro de dentro escapou-se como um
bafo. E, como o escuro de dentro me
espiasse, ficamos um instante nos espiando sem nos vermos.
meia escuridão,
movera-se a barata grossa. Meu grito foi
tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado,
O grito ficara me batendo dentro do
peito.
Pela lentidão e grossura, era uma
barata muito velha.
No meu arcaico horror por baratas eu
aprendera a adivinhar, mesmo à distância, suas idades e perigos; mesmo sem
nunca ter realmente encarado uma barata eu conhecia os seus processos de
existência.
Só que ter descoberto súbita vida
na nudez do quarto me assustara como se eu descobrisse que o quarto morto era
na verdade potente.
Tudo ali havia secado - mas restara uma barata. Uma barata tão velha que era
imemorial. O que sempre me repugnara em baratas é que elas
eram obsoletas e no entanto atuais. Saber que elas já estavam na Terra, e
iguais a hoje, antes mesmo que tivessem aparecido os primeiros dinossauros,
saber que o primeiro homem surgido já as havia encontrado proliferadas e se
arrastando vivas, saber que elas haviam testemunhado a formação das grandes
jazidas de petróleo e carvão no mundo, e lá estavam durante o grande avanço e
depois durante o grande recuo das geleiras - a resistência pacífica. Eu sabia
que baratas resistiam a mais de um mês sem alimento ou água. E que até de
madeira faziam substância nutritiva aproveitável. E que, mesmo depois de pisadas, descomprimiam-se lentamente e
continuavam a andar. Mesmo congeladas, ao degelarem, prosseguiam na
marcha... Há trezentos e cinqüenta
milhões de anos elas se repetiam sem se transformarem. Quando o mundo era quase nu elas já o cobriam vagarosas.
Como ali, no quarto nu e
esturricado, a gota virulenta: numa limpa proveta de ensaio uma gota de
matéria.
Olhei o
quarto com desconfiança. Havia a barata, então. Ou baratas. Onde? atrás das
malas talvez. Uma? duas? quantas? Atrás do silêncio imóvel das malas, talvez
toda uma escuridão de baratas. Uma imobilizada sobre a outra? Camadas de
baratas - que de súbito me lembravam o que em criança eu havia descoberto uma
vez ao levantar o colchão sobre o qual dormia: o negror de centenas e centenas
de percevejos, conglomerados uns sobre os outros.
A
lembrança de minha pobreza em criança, com percevejos, goteiras, baratas e
ratos, era de como um meu passado préhistórico, eu já havia vivido com os
primeiros bichos da Terra.
Uma
barata? muitas? mas quantas?!, perguntei-me em cólera. Vagueei o olhar pelo
quarto nu. Nenhum ruído, nenhum sinal: mas quantas? Nenhum ruído e no entanto
eu bem sentia uma ressonância enfática, que era a do silêncio roçando o
silêncio. A hostilidade me tomara. É mais do que não gostar de baratas: eu não
as quero. Além de que são a miniatura de
um animal enorme. A hostilidade crescia.
Não fora
eu quem repelira o quarto, como havia por um instante sentido à porta. O
quarto, com sua barata secreta, é que me repelira. De início eu fora rejeitada
pela visão de uma nudez tão forte como a de uma miragem; pois não fora a
miragem de um oásis que eu tivera, mas a miragem de um deserto. Depois eu fora
imobilizada pela mensagem dura na parede: as figuras de mão espalmada haviam
sido um dos sucessivos vigias à entrada do sarcófago. E agora eu entendia que a
barata e Janair eram os verdadeiros habitantes do quarto.
Não, eu
não arrumaria nada - se havia baratas, não. A nova empregada que dedicasse seu
primeiro dia de serviço àquele escrínio empoeirado e vazio.
Uma onda
de arrepio, dentro do grande calor do sol, percorreu-me: apressei-me por sair
daquela câmara ardente.
Meu
primeiro movimento físico de medo, enfim expresso, foi que me revelou com
surpresa que eu estava com medo. E precipitou-me então num medo maior - ao
tentar a saída, tropecei entre o pé da cama e o guarda-roupa. Uma possível
queda naquele quarto de silêncio constrangeu-me o corpo em nojo profundo -
tropeçar fizera de minha tentativa de fuga um ato já em si malogrado - seria
esse o modo que “eles”, os do sarcófago, tinham de não me deixar mais sair?
Eles me impediam de sair e apenas com este modo simples: deixavam-me
inteiramente livre, pois sabiam que eu já não poderia mais sair sem tropeçar e
cair.
Não que
eu estivesse presa mas estava localizada. Tão
localizada como se ali me tivessem fixado com o simples e único gesto de
me apontar com o dedo, apontar a mim e a um lugar.
Eu já
havia conhecido anteriormente o sentimento de lugar.
Quando era criança,
inesperadamente tinha a consciência de estar deitada numa cama que se achava na
cidade que se achava na Terra que se achava no Mundo. Assim como em criança, tive então a noção precisa de que estava
inteiramente sozinha numa casa, e que a casa era alta e solta no ar, e que
esta casa tinha baratas invisíveis.
Anteriormente,
quando eu me localizava, eu me ampliava. Agora eu me localizava me restringindo
- restringindo-me a tal ponto que, dentro do quarto, o meu único lugar era
entre o pé da cama e a porta do guarda-roupa.
Só que o
sentimento de lugar agora felizmente me acontecia não de noite, como em
criança, pois deviam ser dez e pouco da manhã.
E
inesperadamente as próximas vindouras onze horas da manhã me pareceram um
elemento de terror - como o lugar, também o tempo se tornara palpável, eu queria
fugir como de dentro de um relógio, e apressei-me desordenadamente.
Mas para
poder sair do canto onde, ao ter entreaberto a porta do guarda-roupa, eu mesma
me encurralara, teria antes que fechar a porta que me barrava contra o pé da
cama: ali estava eu sem passagem livre, encurralada
pelo sol que agora me ardia nos cabelos da nuca, num forno seco que se chamava
dez horas da manhã.
Minha
mão rápida foi à porta do guarda-roupa para fechá-lo e me abrir caminho - mas
recuou de novo.
É que lá dentro a barata se movera.
Fiquei quieta. Minha respiração era leve, superficial.
Eu tinha
agora uma sensação de irremediável. E já sabia que embora absurdamente, eu só
teria ainda chance de sair dali se encarasse frontal e absurdamente que alguma
coisa estava sendo irremediável. Eu sabia que tinha de admitir o perigo em que
eu estava, mesmo consciente de que era loucura acreditar num perigo
inteiramente inexistente. Mas eu tinha de acreditar em mim - a vida toda eu estivera como todo o mundo
em perigo - mas agora, para poder sair, eu tinha a responsabilidade
alucinada de ter de saber disso.
Na minha
clausura entre a porta do armário e o pé da cama, eu ainda não tentara de novo
mover os pés para sair, mas recuara o dorso para trás como, se mesmo na sua
extrema lentidão, a barata pudesse dar um bote - eu já havia visto as baratas
que de súbito voam, a fauna alada.
Fiquei
imóvel, calculando desordenadamente. Estava atenta, eu estava toda atenta. Em
mim um sentimento de grande espera havia crescido, e uma resignação
surpreendida: é que nesta espera atenta eu reconhecia todas as minhas
esperas anteriores, eu reconhecia a atenção de que também antes vivera, a
atenção que nunca me abandona e que em última análise talvez seja a coisa mais
colada à minha vida - quem sabe aquela atenção era a minha própria vida. Também
a barata: qual é o único sentimento de uma barata? a atenção de viver, inextricável
de seu corpo. Em mim, tudo o que eu superpusera ao inextricável de mim,
provavelmente jamais chegara a abafar a atenção que, mais que atenção à
vida, era o próprio processo de vida em mim.
Foi
então que a barata começou a emergir do fundo.Antes o tremor anunciante das
antenas.
Depois,
atrás dos fios secos, o corpo relutante foi aparecendo. Até chegar quase toda à
tona da abertura do armário.
Era
parda, era hesitante como se fosse enorme de peso. Estava agora quase toda
visível.
Abaixei
rapidamente os olhos. Ao esconder os olhos, eu escondia da barata a astúcia que
me tomara - o coração me batia quase como numa alegria. É que inesperadamente
eu sentira que tinha recursos, nunca antes havia usado meus recursos - e agora
toda uma potência latente enfim me latejava, e uma grandeza me tomava: a da
coragem, como se o medo mesmo fosse o que me tivesse enfim investido de minha
coragem. Momentos antes eu superficialmente julgara que meus sentimentos eram
apenas de indignação e de nojo, mas agora eu reconhecia - embora nunca tivesse
conhecido antes - que o que sucedia é que enfim eu assumira um medo grande,
muito maior do que eu.
O medo
grande me aprofundava toda. Voltada para dentro de
mim, como um cego ausculta a própria atenção, pela primeira vez
eu me sentia toda incumbida por um instinto. E estremeci de extremo gozo como
se enfim eu estivesse atentando à grandeza de um instinto que era ruim, total e
infinitamente doce - como se enfim eu experimentasse, e em mim mesma, uma
grandeza maior do que eu. Eu me embriagava pela primeira vez de um ódio tão
límpido como de uma fonte, eu me embriagava com o desejo, justificado ou não,
de matar.
Toda uma
vida de atenção - há quinze séculos eu não lutava, há quinze séculos eu não
matava, há quinze séculos eu não morria toda uma vida de atenção acuada reunia-
se agora em mim e batia como um sino mudo cujas vibrações eu não precisava
ouvir, eu as reconhecia. Como se pela primeira vez enfim eu estivesse ao
nível da Natureza.
Uma
capacidade toda controlada me tomara, e por ser controlada ela era toda
potência. Até então eu nunca fora dona de meus poderes - poderes que eu não
entendia nem queria entender, mas a vida em mim os havia retido para que um dia
enfim desabrochasse essa matéria desconhecida e feliz e inconsciente que era
finalmente: eu! eu, o que quer que seja.
Sem
nenhum pudor, comovida com minha entrega ao que é o mal, sem nenhum pudor,
comovida, grata, pela primeira vez eu estava sendo a desconhecida que eu era
- só que desconhecer-me não me impediria mais, a verdade já me
ultrapassara: levantei a mão como para um juramento, e num só golpe fechei
a porta sobre o corpo meio emergido da barata .Ao mesmo tempo eu também havia
fechado os olhos. E assim permaneci, toda trêmula. Que fizera eu?
Já então
eu talvez soubesse que não me referia ao que eu fizera à barata mas sim a:
que fizera eu de mim?
É que
nesses instantes, de olhos fechados, eu tomava consciência de mim assim como se
toma consciência de um sabor: eu toda
estava com sabor de aço e azinhavre, eu toda era ácida como um metal na língua,
como planta verde esmagada, meu sabor me veio todo à boca. Que fizera
eu de mim? Com o coração batendo, as têmporas pulsando, eu fizera de mim
isto: eu matara. Eu matara! Mas por que aquele júbilo, e além dele a aceitação
vital do júbilo? Há quanto tempo, então, estivera eu por matar?
Não, não se tratava disso. A
pergunta era: o que matara eu?
Essa
mulher calma que eu sempre fora, ela enlouquecera de prazer? Com os olhos ainda
fechados eu tremia de júbilo. Ter matado - era tão maior que eu, era da altura
daquele quarto indelimitado. Ter matado abria a secura das areias do quarto até
a umidade, enfim, enfim, como se eu tivesse cavado e cavado com dedos duros e
ávidos até encontrar em mim um fio bebível de vida que era o de uma morte. Abri
devagar os olhos, em doçura agora, em gratidão, timidez, num pudor de glória.
Do mundo
enfim úmido de onde eu emergia, abri os olhos e reencontrei a grande e dura luz
aberta, vi a porta agora fechada do guarda-roupa.
E vi a metade do corpo da barata
para fora da porta.
Projetada
para a frente, ereta no ar, uma cariátide. Mas uma cariátide viva.
Hesitei
em compreender, olhava surpreendida. Foi aos poucos que percebi o que sucedera:
eu não havia empurrado a porta com bastante força. Havia prendido, sim, a
barata que já não poderia mais avançar. Mas deixara-a viva.
Viva e
olhando para mim. Desviei rapidamente os olhos, em repulsa violenta.
Ainda
faltava, então, um golpe final. Um golpe a mais? Eu não a olhava, mas me
repetia que um golpe ainda me era necessário - repetia-o lentamente como se
cada repetição tivesse por finalidade dar uma ordem de comando às batidas de
meu coração, às batidas que eram espaçadas demais como uma dor da qual eu
não sentisse o sofrimento.
Até que
- enfim conseguindo me ouvir, enfim conseguindo me comandar - ergui a mão bem
alto como se meu corpo todo, junto com o golpe do braço, também fosse cair em
peso sobre a porta do guarda-roupa.Mas foi então que vi a cara da barata.
Ela
estava de frente, à altura de minha cabeça e de meus olhos. Por um instante
fiquei com a mão parada no alto. Depois gradualmente abaixei-a.
Um
instante antes talvez eu ainda tivesse podido não ter visto na cara da barata o
seu rosto.
Mas eis
que por um átimo de segundo ficara tarde demais: eu via. Minha mão, que se
abaixara ao desistir do golpe, foi aos poucos subindo de novo lentamente até o
estômago: se eu mesma não me movera do lugar, o estômago recuara para dentro de
meu corpo. A boca secara demais, passei uma língua também seca pelos lábios
ásperos.
Era uma
cara sem contorno. As antenas saíam em bigodes dos lados da boca. A boca marrom
era bem delineada. Os finos e longos bigodes mexiam-se lentos e secos. Seus
olhos pretos facetados olhavam. Era uma barata tão velha como um peixe
fossilizado. Era uma barata tão velha como salamandras e quimeras e grifos e
leviatãs. Ela era antiga como uma lenda. Olhei a boca: lá estava a boca
real.
Eu nunca
tinha visto a boca de uma barata. Eu na verdade - eu nunca tinha mesmo visto
uma barata. Só tivera repugnância pela sua antiga e sempre presente existência
- mas nunca a defrontara, nem mesmo em pensamento.
E eis
que eu descobria que, apesar de compacta, ela é formada de cascas e
cascas pardas, finas como as de uma cebola, como se cada uma pudesse ser
levantada pela unha e no entanto sempre aparecer mais uma casca, e mais uma.
Talvez as cascas fossem as asas, mas então ela devia ser feita de camadas e
camadas finas de asas comprimidas até formar aquele corpo compacto.
Ela era
arruivada. E toda cheia de cílios. Os cílios seriam talvez as múltiplas pernas.
Os fios de antena estavam agora quietos, fiapos secos e empoeirados.
A barata
não tem nariz. Olhei-a, com aquela sua boca e seus olhos: parecia uma mulata à
morte. Mas os olhos eram radiosos e negros. Olhos de noiva. Cada olho em si
mesmo parecia uma barata. O olho franjado, escuro, vivo e desempoeirado. E o
outro olho igual. Duas baratas incrustadas na barata, e cada olho reproduzia a
barata inteira.
Cada olho reproduzia a barata
inteira.
- Perdoa
eu te dar isto, mão que seguro, mas é que não quero isto para mim! toma essa
barata, não quero o que vi.
Ali
estava eu boquiaberta e ofendida e recuada - diante do ser empoeirado que me
olhava. Toma o que eu vi: pois o que eu via com um constrangimento tão penoso e
tão espantado e tão inocente, o que eu via era a vida me olhando.
Como
chamar de outro modo aquilo horrível e cru, matériaprima e plasma seco, que ali estava, enquanto
eu recuava para dentro de mim em náusea seca, eu caindo séculos e séculos
dentro de uma lama era lama, e nem sequer lama já seca mas lama ainda
úmida e ainda viva, era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável as
raízes de minha identidade.
Toma,
toma tudo isso para ti, eu não quero ser uma pessoa viva! tenho nojo e
maravilhamento por mim, lama grossa lentamente brotando.
Era
isso era isso então. É que eu olhara a barata viva e nela descobria a
identidade de minha vida mais profunda. Em derrocada difícil, abriam-se dentro de mim
passagens duras e estreitas.
Olhei-a,
à barata: eu a odiava tanto que passava para o seu lado, solidária com ela,
pois não suportaria ficar sozinha com minha agressão.
E de
repente gemi alto, dessa vez ouvi meu gemido. É que como um pus subia à minha
tona a minha mais verdadeira consistência - e eu sentia com susto e nojo que
eu ser vinha de uma fonte muito anterior à humana e, com horror, muito maior
que a humana.
Abria-se
em mim, com uma lentidão de portas de pedra, abria-se em mim a larga vida do
silêncio, a mesma que estava no sol parado, a mesma que estava na barata
imobilizada. E que seria a mesma em mim! se eu tivesse coragem de abandonar...
de abandonar meus sentimentos? Se eu tivesse coragem de abandonar a esperança.
A
esperança de quê? Pela primeira vez eu me espantava de sentir que havia fundado
toda uma esperança em vir a ser aquilo que eu não era. A esperança - que outro
nome dar? - que pela primeira vez eu agora iria abandonar, por coragem e por
curiosidade mortal. A esperança, na minha vida anterior, teria se fundado numa
verdade? Com espanto infantil, eu agora duvidava.
Para
saber o que realmente eu tinha a esperar, teria eu antes que passar pela minha
verdade? Até que ponto até agora eu havia inventado um destino, vivendo no
entanto subterraneamente de outro?
Fechei
os olhos, aguardando que a estranheza passasse, aguardando que meu arfar não
fosse mais o daquele gemido que eu ouvira como vindo do fundo de uma cisterna
seca e funda, assim como a barata era bicho de cisterna seca. Eu ainda
continuava a sentir, incalculavelmente longínquo em mim, o gemido que já não me
chegava mais à garganta.
Isto
é a loucura, pensei de olhos fechados. Mas era tão inegável sentir aquele nascimento de dentro
da poeira - que eu não podia senão seguir aquilo que eu bem sabia que não era loucura, era, meu Deus, uma
verdade pior, a horrível. Mas horrível por quê? É que ela contrariava
sem palavras tudo o que antes eu costumava pensar também sem palavras.
Aguardei
que a estranheza passasse, que a saúde voltasse. Mas reconhecia, num esforço
imemorial de memória, que já havia sentido essa estranheza: era a mesma que
eu experimentava quando via fora de mim o meu próprio sangue, e eu o
estranhava. Pois o sangue que eu via fora de mim, aquele sangue eu o estranhava
com atração: ele era meu.
Eu não
queria reabrir os olhos, não queria continuar a ver. Os regulamentos e as leis,
era preciso não esquecê-los, é preciso não esquecer que sem os regulamentos e
as leis também não haverá a ordem, era preciso não esquecê-los e defendê-los
para me defender.
Mas é que eu já não podia mais me
amarrar.
A
primeira ligação já se tinha involuntariamente partido, e eu me despregava da
lei, mesmo intuindo que iria entrar no inferno da matéria viva - que espécie de
inferno me aguardava? mas eu tinha que ir. Eu tinha que cair na danação de
minha alma, a curiosidade me consumia.
Então
abri de uma só vez os olhos, e vi em cheio a vastidão indelimitada do quarto,
aquele quarto que vibrava em silêncio, laboratório de inferno.
O
quarto, o quarto desconhecido. Minha entrada nele se fizera enfim.
A
entrada para este quarto só tinha uma passagem, e estreita: pela barata. A barata
que enchia o quarto de vibração enfim aberta, as vibrações de seus guizos de
cascavel no deserto. Através de dificultoso caminho, eu chegara à profunda
59 incisão na parede que era aquele quarto - e a fenda formava como numa cave
um amplo salão natural.
Nu,
como preparado para a entrada de uma só pessoa. E quem entrasse se
transformaria num “ela” ou num “ele”. Eu era aquela a quem o quarto chamava de “ela”. Ali entrara
um eu a que o quarto dera uma dimensão de ela. Como se eu fosse também o
outro lado do cubo, o lado que não se vê porque se está vendo de frente.
E na
minha grande dilatação, eu estava no deserto. Como te explicar? eu estava no
deserto como nunca estive. Era um deserto que me chamava como um cântico
monótono e remoto chama. Eu estava sendo seduzida. E ia para essa loucura
promissora. Mas meu medo não era o de quem estivesse indo para a loucura, e sim
para uma verdade - meu medo era o de ter uma verdade que eu viesse a não
querer, uma verdade infamante que me fizesse rastejar e ser do nível da barata.
Meus primeiros contatos com as verdades sempre me difamaram.
- Segura
a minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais
primária vida divina, estou indo para um inferno de vida crua. Não me deixes
ver porque estou perto de ver o núcleo da vida - e, através da barata que
mesmo agora revejo, através dessa amostra de calmo horror vivo, tenho medo de
que nesse núcleo eu não saiba mais o que é esperança.
A barata
é pura sedução. Cílios, cílios pestanejando que chamam.
Também eu,
que aos poucos estava me reduzindo ao que em mim era irredutível, também
eu tinha milhares de cílios pestanejando, e com meus cílios eu avanço, eu
protozoária, proteína pura. Segura minha mão, cheguei ao irredutível com a
fatalidade de um dobre - sinto que tudo isso é antigo e amplo, sinto no
hieróglifo da barata lenta a grafia do Extremo Oriente. E neste deserto de
grandes seduções, as criaturas: eu e a barata viva. A vida, meu amor, é uma
grande sedução onde tudo o que existe se seduz. Aquele quarto que estava
deserto e por isso primariamente vivo. Eu chegara ao nada, e o nada era vivo e
úmido.
Eu chegara ao nada, e o nada era
vivo e úmido
Foi
então - foi então que lentamente como de uma bisnaga foi saindo lenta a matéria
da barata que fora esmagada.
A
matéria da barata, que era o seu de dentro, a matéria grossa, esbranquiçada,
lenta, crescia para fora como de uma bisnaga de pasta de dentes.
Diante
de meus olhos enojados e seduzidos, lentamente a forma da barata ia se
modificando à medida que ela engrossava para fora. A matéria branca brotava
lenta para cima de suas costas como uma carga. Imobilizada, ela sustentava por
cima do flanco empoeirado a carga do próprio corpo.
“Grite”,
ordenei-me quieta. “Grite”, repeti-me inutilmente com um suspiro de profunda
quietude.
A
grossura branca imobilizara-se agora por cima das cascas. Olhei para o teto,
descansando um pouco os olhos que eu sentia terem se tornado fundos e grandes.
Mas se
eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse
ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha
carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só
enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se
souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se
eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois
arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é
arrastado, o ser gritante.
Olhei
para o teto com olhos pesados. Tudo se resumia ferozmente em nunca dar um
primeiro grito - um
primeiro grito desencadeia todos os outros, o primeiro grito ao nascer
desencadeia uma vida, se eu gritasse acordaria milhares de seres gritantes que
iniciariam pelos telhados um coro de gritos e horror. Se eu gritasse
desencadearia a existência - a existência de quê? a existência do mundo. Com
reverência eu temia a existência do mundo para mim.
- É que,
mão que me sustenta, é que eu, numa experiência que não quero nunca mais,
numa experiência pela qual peço perdão a mim mesma, eu estava saindo do meu
mundo e entrando no mundo.
É que
eu não estava mais me vendo, estava era vendo. Toda uma civilização que se
havia erguido, tendo como garantia que se misture imediatamente o que se vê com
o que se sente,
toda uma civilização que tem como alicerce o salvar-se - pois eu estava em
seus escombros. Dessa civilização só pode sair quem tem como função
especial a de sair:
a um
cientista é dada a licença, a um padre é dada a permissão. Mas não a uma mulher
que nem sequer tem as garantias de um título. E eu fugia, com mal-estar eu
fugia.
Se
soubesses da solidão desses meus primeiros passos. Não se parecia com a solidão
de uma pessoa. Era como se eu já tivesse morrido e desse sozinha os primeiros
passos em outra vida.
E era como se a essa solidão chamassem de glória, e também eu sabia que era uma
glória, e tremia toda nessa 62 63 glória divina primária que, não só eu não
compreendia, como profundamente não a queria.
-
Porque, vê, eu sabia que estava entrando na bruta e crua glória da natureza.
Seduzida, eu no entanto lutava como podia contra as areias movediças que me
sorviam: e cada movimento que eu fazia para “não, não!”, cada movimento mais me
empurrava sem remédio; não ter forças para lutar era o meu único perdão.
Olhei
para o quarto onde eu me aprisionara, e buscava uma saída, desesperadamente
procurava escapar, e dentro de mim eu já recuara tanto que minha alma se
encostara até a parede - sem sequer poder me impedir, sem querer mais me
impedir, fascinada pela certeza do ímã que me atraía, eu recuava dentro de
mim até a parede onde eu me incrustava no desenho da mulher. Eu recuara até
a medula de meus ossos, meu último reduto. Onde, na parede, eu estava tão nua
que não fazia sombra.
E as
medidas, as medidas ainda eram as mesmas, eu senti que eram, eu sabia que
nunca passara daquela mulher na parede, eu era ela. E estava toda
conservada, longo e frutuoso caminho.
Minha
tensão de súbito quebrou-se como um ruído que se interrompe.
E o
primeiro verdadeiro silêncio começou a soprar. O que eu havia visto de tão
tranqüilo e vasto e estrangeiro nas minhas fotografias escuras e sorridentes -
aquilo estava pela primeira vez fora de mim e ao meu inteiro alcance,
incompreensível mas ao meu alcance.
O que me
aliviava como a uma sede, aliviava-me como se durante toda a vida eu tivesse
esperado por uma água tão necessária para o corpo eriçado como é a cocaína para
quem a implora. Enfim o corpo, embebido de silêncio, se apaziguava. o alívio
vinha de eu caber no desenho mudo da caverna.
Até
aquele momento eu não havia percebido totalmente a minha luta, tão mergulhada
estivera nela. Mas agora, pelo silêncio onde enfim eu caíra, sabia que havia
lutado, que havia sucumbido e que cedera.
E que, agora sim, eu estava
realmente no quarto.
Tão
dentro dele como um desenho há trezentos mil anos numa caverna. E eis que eu cabia dentro de
mim, eis que eu estava em mim mesma gravada na parede.
A
passagem estreita fora pela barata difícil, e eu me havia esgueirado com nojo
através daquele corpo de cascas e lama. E terminara, também eu toda imunda, por
desembocar através dela para o meu passado que era o meu contínuo presente e
o meu futuro contínuo - e que hoje e sempre está na parede, e minhas quinze
milhões de filhas, desde então até eu, também lá estavam.
Minha vida fora tão contínua quanto a morte. A vida é tão contínua que
nós a dividimos em etapas, e a uma delas chamamos de morte. Eu sempre estivera em vida, pouco importa que
não eu propriamente dita, não isso a que convencionei chamar de eu. Sempre
estive em vida.
Eu,
corpo neutro de barata, eu com uma vida que finalmente não me escapa pois enfim
a vejo fora de mim - eu sou a barata, sou minha perna, sou meus cabelos, sou
o trecho de luz mais branca no reboco da parede sou cada pedaço infernal de
mim - a vida em mim é tão insistente que se me partirem, como a uma
lagartixa, os pedaços continuarão estremecendo e se mexendo. Sou o silêncio gravado
numa parede, e a borboleta mais antiga esvoaça e me defronta: a mesma de
sempre. De nascer até morrer é o que eu me chamo de humana, e nunca
propriamente morrerei.
Mas esta não é a eternidade, é a
danação.
Como é
luxuoso este silêncio. É acumulado de séculos. É um silêncio de barata que
olha. O mundo se me olha. Tudo olha para tudo, tudo vive o outro; neste deserto
as coisas sabem as coisas. As coisas sabem tanto as coisas que a isto.., a
isto chamarei de perdão, se eu quiser me salvar no plano humano. É o perdão em
si. Perdão é um atributo da matéria viva.
Perdão é um atributo da matéria
viva.
- Vê,
meu amor, vê como por medo já estou organizando, vê como ainda não consigo
mexer nesses elementos primários do laboratório sem logo querer organizar a
esperança. É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz
nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha, e o que
eu tinha era eu - só tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé
diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender,
o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas.
Eu, que antes vivera de palavras de caridade ou
orgulho ou de qualquer coisa. Mas que abismo entre a palavra e o que ela
tentava, que abismo entre a palavra amor e o amor que não tem sequer
sentido humano - porque - porque amor é a matéria viva.
Amor é a matéria viva?
O que
foi que me sucedeu ontem? e agora? Estou confusa, atravessei desertos e
desertos, mas fiquei presa sob algum detalhe? como debaixo de uma rocha.
Não,
espera, espera: com alívio tenho que lembrar que desde ontem’ já saí daquele
quarto, eu já saí, estou livre! e ainda tenho chance de recuperação. Se eu
quiser.
Mas quero?
O que vi
não é organizável. Mas se eu realmente quiser, agora mesmo, ainda poderei
traduzir o que eu soube em termos mais nossos, em termos humanos, e ainda
poderei deixar desapercebidas as horas de ontem. Se eu ainda quiser poderei,
dentro de nossa linguagem, me perguntar de outro modo o que me aconteceu.
E, se
desse modo eu perguntar, ainda terei uma resposta de recuperação. A recuperação
seria saber que: G.H. era uma mulher que vivia bem, vivia bem, vivia bem, vivia
na super- camada das areias do mundo, e as areias nunca haviam derrocado de
debaixo de seus pés: a sintonização era tal que, à medida que as areias se
moviam, os pés se moviam em conjunto com elas, e então tudo era firme e
compacto. G.H. vivia no último andar de uma superestrutura, e, mesmo construído
no ar, era um edifício sólido, ela própria no ar, assim como as abelhas tecem a
vida no ar. E isto havia séculos vinha acontecendo, com as variantes
necessárias ou casuais, e dava certo. Dava certo - pelo menos nada falou e
ninguém falou, ninguém disse que não; era certo, pois.
Mas,
exatamente o lento acúmulo de séculos automaticamente se empilhando, era o que,
sem ninguém perceber, ia tornando a construção no ar muito pesada, essa construção ia-se
saturando de si mesma: ia ficando cada vez mais compacta, em vez de se tornar
cada vez mais frágil. O acúmulo de viver numa superestrutura tornava-se cada
vez mais pesado para se sustentar no ar.
Como
um edifício onde de noite todos dormem tranqüilos, sem saber que os alicerces
vergam e que, num instante não anunciado pela tranqüilidade, as vigas vão ceder
porque a força de coesão está lentamente se desassociando um milímetro por cada século. E então, quando
menos se espera - num instante tão repetidamente comum como o de se levar um
copo de bebida à boca sorridente no meio de um baile - então, ontem, num dia
tão cheio de sol como estes dias do ápice do verão, com os homens trabalhando e
as cozinhas fumegando e a broca britando as pedras e as crianças rindo e um
padre lutando por impedir, mas impedir o quê? - ontem, sem aviso, houve o
fragor do sólido que subitamente se torna friável numa derrocada.
No
desmoronamento, toneladas caíram sobre toneladas. E quando eu, G.H. até nas
valises, eu, uma das pessoas, abri os olhos, estava - não sobre escombros pois
até os escombros já haviam sido deglutidos pelas areias - estava numa planície
tranqüila, quilômetros e quilômetros abaixo do que fora uma grande cidade. As
coisas haviam voltado a ser o que eram.
O
mundo havia reivindicado a sua própria realidade, e, como depois de uma
catástrofe, a minha civilização acabara: eu era apenas um dado histórico. Tudo em mim fora
reivindicado pelo começo dos tempos e pelo meu próprio começo. Eu passara a
um primeiro plano primário, estava no silêncio dos ventos e na era de estanho e
cobre - na era primeira da vida.
Escuta,
diante da barata viva, a pior descoberta foi a de que o mundo não é humano,
e de que não somos humanos.
Não, não
te assustes! certamente o que me havia salvo até aquele momento da vida
sentimentizada de que eu vivia, é que o inumano é o melhor nosso, é a
coisa, a parte coisa da gente. Só por isso é que, como pessoa falsa, eu não
havia até então soçobrado sob a construção sentimentária e utilitária: meus
sentimentos humanos eram utilitários, mas eu não tinha soçobrado porque a parte
coisa, matéria do Deus, era forte demais e esperava para me reivindicar. O grande
castigo neutro da vida geral é que ela de repente pode solapar uma vida; se não
lhe for dada a força dela mesma, então ela rebenta como um dique rebenta - e
vem pura, sem mistura nenhuma: puramente neutra. Aí estava o grande perigo:
quando essa parte neutra de coisa não embebe uma vida pessoal, a vida vem toda
puramente neutra.
Mas por
que exatamente em mim fora repentinamente se refazer o primeiro silêncio? Como
se uma mulher tranqüila tivesse simplesmente sido chamada e tranqüilamente
largasse o bordado na cadeira, se erguesse, e sem uma palavra - abandonando sua
vida, renegando bordado, amor e alma já feita - sem uma palavra essa mulher se
pusesse calma mente de quatro, começasse a engatinhar e a se arrastar com olhos
brilhantes e tranqüilos: é que a vida anterior a reclamara e ela fora.
Mas
por que eu? Mas por que não eu. Se não tivesse sido eu, eu não saberia, e tendo
sido eu, eu soube - apenas isso. O que é que me havia chamado: a loucura ou a
realidade?
A vida
se vingava de mim, e a vingança consistia apenas em voltar, nada mais. Todo
caso de loucura é que alguma coisa voltou. Os possessos, eles não são
possuídos pelo que vem, mas pelo que volta. Às vezes a vida volta. Se em mim
tudo se quebrava à passagem da força, não é
porque a função desta era a de quebrar: ela só precisava enfim passar pois já
se tornara caudalosa demais para poder se conter ou contornar - ao passar ela
cobria tudo. E depois, como após um dilúvio, sobrenadavam um armário, uma
pessoa, uma janela solta, três maletas. E isso me parecia o inferno, essa
destruição de camadas e camadas arqueológicas humanas.
O
inferno, porque o mundo não me tinha mais sentido humano, e o homem não me
tinha mais sentido humano. E sem essa humanização e sem a sentimentação do
mundo - eu me apavoro.
Sem um grito olhei a barata.
Vista de
perto, a barata é um objeto de grande luxo. Uma noiva de pretas jóias. é toda
rara, parece um único exemplar. Prendendo-a pelo meio do corpo com a porta do
armário, eu isolara o único exemplar. O que aparecia dela era apenas a metade
do corpo. O resto, o que não se via, podia ser enorme, e dividia-se por
milhares de casas, atrás de coisas e armários. Eu, porém, não queria a parte
que me coubera. Atrás da superfície de casas - aquelas jóias embaçadas andando
de rojo?
Eu me
sentia imunda como a Bíblia fala dos imundos. Por que foi que a Bíblia se
ocupou tanto dos imundos, e fez uma lista dos animais imundos e proibidos? por
que se, como os outros, também eles haviam sido criados? E por que o imundo era
proibido? Eu fizera o ato proibido de tocar no que é imundo.
Eu fizera o ato proibido de tocar
no que é imundo.
E tão
imundo estava eu, naquele meu súbito conhecimento indireto de mim, que abri a
boca para pedir socorro. Eles dizem tudo, a Bíblia, eles dizem tudo - mas se eu
entender o que eles dizem, eles mesmos me chamarão de enlouquecida. Pessoas
iguais a mim haviam dito, no entanto entendê-las seria a minha derrocada.
“Mas não
comereis das impuras: quais são a águia, e o grifo, e o esmerilhão.” E nem a
coruja, e nem o cisne, e nem o morcego, nem a cegonha, e todo o gênero de
corvos.
Eu
estava sabendo que o animal imundo da Bíblia é proibido porque o imundo é a
raiz - pois há coisas criadas que nunca se enfeitaram, e conservaram-se iguais
ao momento em que foram criadas, e somente elas continuaram a ser a raiz ainda
toda completa. E porque são a raiz é que não se podia comê-las, o fruto do bem
e do mal - comer a matéria viva me expulsaria de um paraíso de adornos, e me
levaria para sempre a andar com um cajado pelo deserto. Muitos foram os que
andaram com um cajado pelo deserto.
Pior -
me levaria a ver que o deserto também é vivo e tem umidade, e a ver que tudo
está vivo e é feito do mesmo.
Para
construir uma alma possível - uma alma cuja cabeça não devore a própria cauda -
a lei manda que só se fique com o que é disfarçadamente vivo. E a lei manda
que, quem comer do imundo, que o coma sem saber. Pois quem comer do imundo
sabendo que é imundo - também saberá que o imundo não é imundo. É isso?
“E tudo
o que anda de rastos e tem asas será impuro, e não se comerá.”
Abri a
boca espantada: era para pedir um socorro. Por quê? por que não queria eu me
tornar imunda quanto a barata? que ideal me prendia ao sentimento de uma idéia?
por que não me tornaria eu imunda, exatamente como eu toda me descobria? O que
temia eu? ficar imunda de quê?
Ficar imunda de alegria.
Pois
agora entendo que aquilo que eu começara a sentir já era a alegria, o que eu
ainda não reconhecera nem entendera. No meu mudo pedido de socorro, eu estava
lutando era contra uma vaga primeira alegria que eu não queria perceber em mim
porque, mesmo vaga, já era horrível: era uma alegria sem redenção, não sei te
explicar, mas era uma alegria sem a esperança.
- Ah, não retires de mim a tua mão,
eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda,
oh talvez pelo caminho do inferno eu chegue a encontrar o que nós precisamos -
mas não retires tua mão, mesmo que eu já saiba que encontrar tem que ser pelo
caminho daquilo que somos, se eu conseguir não me afundar definitivamente
naquilo que somos.
Vê, meu
amor, já estou perdendo a coragem de achar o que quer que eu tiver de achar,
estou perdendo a coragem de me entregar ao caminho e já estou nos prometendo
que nesse inferno acharei a esperança.
- Talvez não seja a esperança
antiga. Talvez não se possa sequer chamar de esperança.
Eu
lutava porque não queria uma alegria desconhecida. Ela seria tão proibida pela
minha futura salvação quanto o bicho proibido que foi chamado de imundo - e eu
abria e fechava a boca em tortura para pedir socorro, pois então ainda não me
havia ocorrido inventar esta mão que agora inventei para segurar a minha. No
meu medo de ontem eu estava sozinha, e queria pedir socorro contra a minha
primeira desumanização.
A
desumanização é tão dolorosa como perder tudo, como perder tudo, meu amor. Eu
abria e fechava a boca para pedir socorro mas não podia nem sabia articular.
É que eu
não tinha mais o que articular. Minha agonia era como a de querer falar antes
de morrer. Eu sabia que estava me despedindo para sempre de alguma coisa,
alguma coisa ia morrer, e eu queria articular a palavra que pelo menos
resumisse aquilo que morria.
Afinal consegui pelo menos
articular um pensamento:
“estou pedindo socorro”.
Ocorreu-me
então que eu não tinha contra o que pedir socorro. Eu não tinha nada a pedir.
De
repente era isso. Eu estava entendendo que “pedir” eram ainda os últimos restos
de um mundo apelável que, mais e mais, se estava tornando remoto. E se eu
continuava a querer pedir era para ainda me agarrar aos últimos restos de minha
civilização antiga, agarrar-me para não me deixar ser arrastada pelo que agora
me reivindicava. E ao quê - num gozo sem esperança - eu já cedia, ah eu já queria
ceder - ter experimentado já era o começo de um inferno de querer, querer,
querer... A minha vontade de querer era mais forte do que a minha vontade de
salvação?
Cada vez
mais eu não tinha o que pedir. E via, com fascínio e horror, os pedaços de minhas
podres roupas de múmia caírem secas no chão, eu assistia à minha transformação
de crisálida em larva úmida, as asas aos poucos encolhiam-se crestadas. E um
ventre todo novo e feito para o chão, um ventre novo renascia.
Sem
desfitar a barata, fui me abaixando até sentir que meu corpo encontrava a cama
e, sem desfitar a barata, sentei-me.
Agora
era com os olhos erguidos que eu a via. Agora, debruçada sobre a própria
cintura, ela me olhava de cima para baixo. Eu havia prendido defronte de mim o
imundo. do mundo - e desencantara a coisa viva. Eu perdera as idéias.
Então,
de novo, mais um milímetro grosso de matéria branca espremeu-se para fora.
Então,
de novo, mais um milímetro grosso de matéria branca espremeu-se para fora.
Santa
Maria, mãe de Deus, ofereço-vos a minha vida em troca de não ser verdade aquele
momento de ontem. A barata com a matéria branca me olhava. Não sei se ela me
via, não sei o que uma barata vê. Mas ela e eu nos olhávamos, e também não sei
o que uma mulher vê. Mas se seus olhos não me viam, a existência dela me
existia - no mundo primário onde eu entrara, os seres existem os outros como
modo de se verem. E nesse mundo que eu estava conhecendo, há vários modos que
significam ver: um olhar o outro sem vê-lo, um possuir o outro, um comer o
outro, um apenas estar num canto e o outro estar ali também: tudo isso também
significa ver. A barata não me via diretamente, ela estava comigo. A barata não
me via com os olhos mas com o corpo.
E eu -
eu via. Não havia como não vê-la. Não havia como negar: minhas convicções e
minhas asas se crestavam rapidamente e não tinham mais finalidade. Eu não podia
mais negar. Não sei o que é que eu não podia mais negar, mas já não podia mais.
E nem podia mais me socorrer, como antes, de toda uma civilização que me
ajudaria a negar o que eu via.
Eu a via toda, à barata.
A barata
é um ser feio e brilhante. A barata é pelo avesso. Não, não, ela mesma não tem
lado direito nem avesso: ela é aquilo. O que nela é exposto é o que em mim eu
escondo:
de meu
lado a ser exposto fiz o meu avesso ignorado. Ela me olhava. E não era um
rosto. Era uma máscara. Uma máscara de escafandrista. Aquela gema preciosa
ferruginosa. Os dois olhos eram vivos como dois ovários. Ela me olhava com a
fertilidade cega de seu olhar. Ela fertilizava a minha fertilidade morta.
Seriam salgados os seus olhos? Se eu os tocasse - já que cada vez mais imunda
eu gradualmente ficava - se eu os tocasse com a boca, eu os sentiria salgados?
Eu já
havia experimentado na boca os olhos de um homem e, pelo sal na boca, soubera
que ele chorava.
Mas, ao
pensar no sal dos olhos negros da barata, de súbito recuei de novo, e meus
lábios secos recuaram até os dentes: os répteis que se movem sobre a terra! Na
reverberação parada da luz do quarto, a barata era um pequeno crocodilo lento.
O quarto seco e vibrante. Eu e a barata pousadas naquela secura como na crosta
seca de um vulcão extinto. Aquele deserto onde eu entrara, e também nele
descobria a vida e o seu sal.
De novo
a parte branca da barata espremeu-se talvez menos de um milímetro para fora.
Dessa
vez eu mal e mal percebera o movimento ínfimo que a matéria dela fizera. Eu
olhava abismada, quieta.
- Nunca,
até então, a vida me havia acontecido de dia. Nunca à luz do sol. Só nas minhas
noites é que o mundo se revolvia lentamente. Só que, aquilo que acontecia no
escuro da própria noite, também acontecia ao mesmo tempo nas minhas próprias
entranhas, e o meu escuro não se diferenciava do escuro de fora, e de manhã, ao
abrir os olhos, o 76 77 mundo continuava sendo uma superfície: a vida secreta
da noite em breve se reduzia na boca ao gosto de um pesadelo que some. Mas
agora a vida estava acontecendo de dia. Inegável e para ser vista. A menos que
eu desviasse os olhos.
E eu ainda poderia desviar os
olhos.
- Mas é
que o inferno já me tomara, meu amor, o inferno da curiosidade malsã. Eu já
estava vendendo a minha alma humana, porque ver já começara a me consumir em
prazer, eu vendia o meu futuro, eu vendia a minha salvação, eu nos vendia.
“Estou
pedindo socorro», gritei-me então de repente com a mudez dos que têm
gradualmente a boca entulhada pelas areias movediças, “estou pedindo socorro”,
pensei quieta e sentada. Mas nenhuma vez me ocorreu levantar-me e ir embora,
como se isso já fosse impossível. A barata e eu tínhamos sido soterradas numa
mina.
A balança
tinha agora um prato único. Nesse prato estava a minha profunda recusa de
baratas. Mas agora “recusa de baratas” eram meras palavras, e eu também sabia
que na hora de minha morte eu também não seria traduzível por palavra.
De
morrer, sim, eu sabia, pois morrer era o futuro e é imaginável, e de imaginar
eu sempre tivera tempo. Mas o instante, o instante este - a atualidade - isso
não é imaginável, entre a atualidade e eu não há intervalo: é agora, em mim.
-
Entende, morrer eu sabia de antemão e morrer ainda não me exigia. Mas o que eu
nunca havia experimentado era o choque com o momento chamado “já”. Hoje me
exige hoje mesmo. Nunca antes soubera que a hora de viver também não tem
palavra. A hora de viver, meu amor, estava sendo tão já que eu encostava a boca
na matéria da vida. A hora de viver é um ininterrupto lento rangido de portas
que se abrem continuamente de par em par. Dois portões se abriam e nunca tinham
parado de se abrir. Mas abriamse continuamente para - para o nada?
A hora
de viver é tão infernalmente inexpressiva que é o nada. Aquilo que eu chamava
de “nada” era no entanto tão colado a mim que me era... eu? e portanto se
tornava invisível como eu me era invisível, e tornava-se o nada. As portas como
sempre continuavam a se abrir.
Finalmente,
meu amor, sucumbi. E tornou-se um agora.
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Finalmente, meu amor, sucumbi. E tornou-se um agora.
Era
finalmente agora. Era simplesmente agora. Era assim: o país estava em onze
horas da manhã. Superficialmente como um quintal que é verde, da mais delicada
superficialidade. Verde, verde - verde é um quintal. Entre mim e o verde, a
água do ar. A verde água do ar. Vejo tudo através de um copo cheio. Nada se
ouve. No resto da casa a sombra está toda inchada. A superficialidade madura.
São onze horas da manhã no Brasil. É agora. Trata-se exatamente de agora. Agora
é o tempo inchado até os limites. Onze horas não têm profundidade. Onze horas
está cheio das onze horas até as bordas do copo verde. O tempo freme como um
balão parado. O ar fertilizado e arfante. Até que num hino nacional a badalada
das onze e meia corte as amarras do balão. E de repente nós todos chegaremos ao
meio-dia. Que será verde como agora.
Acordei
de súbito do inesperado oásis verde onde por um momento eu me refugiara toda
plena.
Mas eu
estava no deserto. E não é só no ápice de um oásis que é agora: agora também é
no deserto, e pleno. Era já. Pela primeira vez na minha vida tratava-se
plenamente de agora. Esta era a maior brutalidade que eu jamais recebera.
Pois a
atualidade não tem esperança, e a atualidade não tem futuro: o futuro será
exatamente de novo uma atualidade.
Eu
estava tão assustada que ainda mais quieta ficara dentro de mim. Pois
parecia-me que finalmente eu ia ter que sentir.
Parece
que vou ter que desistir de tudo o que deixo atrás dos portões. E sei, eu
sabia, que se atravessasse os portões que estão sempre abertos, entraria no
seio da natureza.
Eu sabia
que entrar não é pecado. Mas é arriscado como morrer. Assim como se morre sem
se saber para onde, e esta é a maior coragem de um corpo. Entrar só era pecado
porque era a danação de minha vida, para a qual eu depois não pudesse talvez
mais regredir. Eu talvez já soubesse que, a partir dos portões, não haveria
diferença entre mim e a barata. Nem aos meus próprios olhos nem aos olhos do
que é Deus.
Foi
assim que fui dando os primeiros passos no nada. Meus primeiros passos
hesitantes em direção à vida, e abandonando a minha vida. O pé pisou no ar, e
entrei no paraíso ou no inferno: no núcleo.
Passei a
mão pela testa: com alívio notava que finalmente havia começado a suar. Até um
pouco antes fora apenas aquela secura quente que nos crestava a nós duas. Agora
eu começava a me umedecer.
Ah, como
estou cansada. Meu desejo agora seria o de interromper tudo isto e inserir neste
difícil relato, por pura diversão e repouso, uma história ótima que ouvi um dia
desses sobre o motivo por que um casal se separou. Ah, conheço tantas histórias
interessantes. E também poderia, para descansar, falar na tragédia. Conheço
tragédias.
Meu suor
me aliviava. Olhei para cima, para o teto. Com o jogo de feixes de luz, o teto
se arredondara e transformara-se no que me lembrava uma abóbada. A vibração do
calor era como a vibração de um oratório cantado. Só minha parte auricular
sentia. Cântico de boca fechada, som vibrando surdo como o que está preso e
contido, amém, amém. Cântico de ação de graças pelo assassinato de um ser por
outro ser.
Assassinato
o mais profundo: aquele que é um modo de relação, que é um modo de um ser
existir o outro ser, um modo de nos vermos e nos sermos e nos termos,
assassinato onde não há vítima nem algoz, mas uma ligação de ferocidade mútua.
Minha luta primária pela vida. “Perdida no inferno abrasador de um canyon uma
mulher luta desesperadamente pela vida.”
Esperei
que aquele som mudo e preso passasse. Mas a vastidão dentro do quarto pequeno
aumentava, o mudo oratório alargava-o em vibrações até a rachadura do teto. O
oratório não era prece: não pedia nada. As paixões em forma de oratório.
A barata
de súbito vomitou pela sua fenda mais um surto branco e fofo.
- Ah!
mas a quem peço socorro, se tu também - pensei então em direção a um homem que
já fora meu - se tu também não me servirias agora. Pois como eu, tu quiseste
transcender a vida, e assim a ultrapassaste. Mas agora eu não vou mais poder
transcender, vou ter que saber, e irei sem ti, a quem eu quis pedir socorro.
Reza por mim, minha mãe, pois não transcender é um sacrifício, e transcender
era antigamente o meu esforço humano de salvação, havia uma utilidade imediata
em transcender. Transcender é uma transgressão. Mas ficar dentro do que é, isso
exige que eu não tenha medo!
E vou ter que ficar dentro do que é.
Há
alguma coisa que precisa ser dita, não sentes que há alguma coisa que precisa
ser sabida? oh, mesmo que depois eu tenha que a transcender, mesmo que depois o
transcender nasça fatalmente de mim como o hálito de quem está vivo.
Mas,
depois do que sei, aceitarei como um hálito de respiração - ou como um miasma?
não, não como um miasma, tenho piedade de mim! quero que, se o transcender me
vier fatalmente, que seja como o hálito que nasce da própria boca, da boca que
existe, e não de uma boca falsa aberta num braço ou na cabeça.
Era com
alegria infernal que eu como que ia morrer. Eu começava a sentir que meu passo
mal-assombrado seria irremediável, e que eu estava pouco a pouco abandonando a
minha salvação humana. Sentia que o meu de dentro, apesar de matéria fofa e
branca, tinha no entanto força de rebentar meu rosto de prata e beleza, adeus
beleza do mundo. Beleza que me é agora remota e que não quero mais estou sem
poder mais querer a beleza - talvez nunca a tivesse querido mesmo, mas era tão
bom! eu me lembro como o jogo da beleza era bom, a beleza era uma transmutação
contínua.
Mas com
alívio infernal eu me despeço dela. O que sai do ventre da barata não é
transcendentável - ah, não quero dizer que é o contrário da beleza, “contrário
de beleza” nem faz sentido o que sai da barata é: “hoje”, bendito o fruto de
teu ventre - eu quero a atualidade sem enfeitá-la com um futuro que a redima,
nem com uma esperança - até agora o que a esperança queria em mim era apenas
escamo tear a atualidade.
Mas eu
quero muito mais que isto: quero encontrar a redenção no hoje, no já, na
realidade que está sendo, e não na promessa, quero encontrar a alegria neste
instante - 82 83 quero o Deus naquilo que sai do ventre da barata - mesmo que
isto, em meus antigos termos humanos, signifique o pior, e, em termos humanos,
o infernal.
Sim, eu
queria. Mas ao mesmo tempo segurava com as duas mãos a boca do estômago: “não
posso!”, implorei para um outro homem que também ele nunca pudera e jamais
poderia. Não posso! não quero saber de que é feito aquilo que até agora eu
chamaria de “o nada!” não quero sentir diretamente na minha boca tão delicada o
sal dos olhos da barata, porque, minha mãe, eu me habituei ao encharcado das
camadas e não à simples umidade da coisa.
Foi
pensando no sal dos olhos da barata que, num suspiro de quem vai ser obrigado a
ceder mais um passo, percebi que ainda estava usando a antiga beleza humana:
sal.
Também a
beleza do sal e a beleza das lágrimas eu teria de abandonar. Também isso, pois
o que eu estava vendo era ainda anterior ao humano.
Pois o que
eu estava vendo era ainda anterior ao humano.
Não, não
havia sal naqueles olhos. Eu tinha a certeza de que os olhos da barata eram
insossos. Para o sal eu sempre estivera pronta, o sal era a transcendência que
eu usava para poder sentir um gosto, e poder fugir do que eu chamava de “nada”.
Para o sal eu estava pronta, para o sal eu toda me havia construído. Mas o que
minha boca não saberia entender - era o insosso, O que eu toda não conhecia -
era o neutro.
E o neutro
era a vida que eu antes chamava de o nada. O neutro era o inferno.
O sol
caminhara um pouco e fixara-se em minhas costas. Também ao sol estava a barata
bipartida. Não posso fazer nada por você, barata. Não quero fazer nada por
você.
É que
não se tratava mais de fazer alguma coisa: o olhar neutro da barata me dizia
que não se tratava disso, e eu o sabia. Só que não estava suportando ficar
apenas sentada e sendo, e então queria fazer. Fazer seria transcender,
transcender é uma saída.
Mas
chegara o momento de não se tratar mais disso. Pois a barata não sabia de
esperança ou piedade. Se ela não estivesse presa e se fosse maior que eu, com
neutro prazer 84 85 ocupado ela me mataria. Assim como o violento neutro de sua
vida admitia que eu, por não estar presa e por ser maior que ela, que eu a
matasse. Essa era a espécie de tranqüila ferocidade neutra do deserto onde
estávamos.
E seus
olhos eram insossos, não salgados como eu quereria: sal seria o sentimento e a
palavra e o gosto. Eu sabia que o neutro da barata tem a mesma falta de gosto
de sua matéria branca. Sentada, eu estava consistindo. Sentada, consistindo, eu
estava sabendo que se não chamasse as coisas de salgadas ou doces, de tristes
ou alegres ou dolorosas ou mesmo com entretons de maior sutileza - que só então
eu não estaria mais transcendendo e ficaria na própria coisa.
Essa
coisa cujo nome desconheço, era essa coisa que, olhando a barata, eu já estava
conseguindo chamar sem nome. Era-me nojento o contato com essa coisa sem
qualidades nem atributos, era repugnante a coisa viva que não tem nome, nem
gosto, nem cheiro. Insipidez: o gosto agora não passava de um travo: o meu
próprio travo. Por um instante, então, senti uma espécie de abalada felicidade
por todo o corpo um horrível malestar feliz em que as pernas me pareciam sumir,
como sempre em que eram tocadas as raízes de minha identidade desconhecida.
Ah, pelo
menos eu já entrara a tal ponto na natureza da barata que já não queria fazer
nada por ela. Estava me libertando de minha moralidade, e isso era uma
catástrofe sem fragor e sem tragédia.
A
moralidade. Seria simplório pensar que o problema moral em relação aos outros
consiste em agir como se deveria agir, e o problema moral consigo mesmo é
conseguir sentir o que se deveria sentir? Sou moral à medida que faço o que
devo, e sinto como deveria? De repente a questão moral me parecia não apenas
esmagadora, como extremamente mesquinha. O problema moral, para que nos
ajustássemos a ele, deveria ser simultaneamente menos exigente e maior. Pois
como ideal é ao mesmo tempo pequeno e inatingível. Pequeno, se se atinge;
inatingível, porque nem ao menos se atinge. “O escândalo ainda é necessário,
mas ai daquele por quem vem o escândalo” - era no Novo Testamento que estava
dito? A solução tinha que ser secreta. A ética da moral é mantê-la em segredo.
A liberdade é um segredo.
Embora
eu saiba que, mesmo em segredo, a liberdade não resolve a culpa. Mas é preciso
ser maior que a culpa. A minha ínfima parte divina é maior que a minha culpa
humana. O Deus é maior que minha culpa essencial. Então prefiro o Deus, à minha
culpa. Não para me desculpar e para fugir mas porque a culpa me amesquinha.
Eu já
não queria fazer nada pela barata. Estava me libertando de minha moralidade -
embora isso me desse medo, curiosidade e fascínio; e muito medo. Não vou fazer
nada por ti, também eu ando de rojo. Não vou fazer nada por ti porque não sei
mais o sentido de amor como antes eu pensava que sabia. Também do que eu
pensava sobre amor, também disso estou me despedindo, já quase não sei mais o
que é, já não me lembro.
Talvez eu
ache um outro nome, tão mais cruel a princípio, e tão mais ele-mesmo. Ou talvez
não ache. Amor é quando não se dá nome à identidade das coisas?
Mas agora sei de algo horrível: sei o que é
precisar, precisar, precisar. E é um precisar novo, num plano que só posso
chamar de neutro e terrível. É um precisar sem nenhuma piedade pelo meu
precisar e sem piedade pelo precisar da barata.Estava sentado, quieto, suando, exatamente como agora - e vejo que há alguma coisa mais séria e mais núcleo do que tudo o que eu costumava chamar por nomes. Eu, que chamava de amor a minha esperança de amor.
Esperança é aquilo que não se tem e que não se terá.
do amor estou me despedindo, já quase não sei mais o que é, já não me lembro.
eu poderia muito bem já ter saído do quarto muito antes, mal visto a barata
Mas o mundo nao familiar, se tornou reconhecível, como matéria já vivida e eu vida vivendo. a própria vida vigilante se vivendo.
Uma nuvem cobriu o sol por um instante, e de repente eu via o mesmo quarto sem sol,
Então percebi que o quarto podia ser frio e tranqüilo como a lua. Em sua noite enluarada, respirei tranquilo. permaneci com os meus milhares de olhos facetados espiando a penumbra.
mas eu sabia que não era noite e que a lua fria não era o quarto nem mesmo a monotonia de uma eternidade que respira
o desespero em um eternidade além do fim de uma civilização extinta. um desespero sem fim,
com à lembrança de um mundo extinto, se o telefone tocasse, eu ainda me salvaria.
Seria a barata, equivalente a alguma coisa que meu olhar via nela?
ser é não saber? Se não olho e não vejo, mesmo assim a verdade existe? A verdade que não se transmite nem para quem vê. Este é o segredo de se ser uma pessoa?
Eu olhava o quarto e só via reboco de areias e areias de escombros umas cobrindo as outras.
aquilo era de ouro duro. Eu estava no duro ouro que não recebe. E eu estava precisando ser recebido.
naquele quarto, tudo podia ser chamado de qualquer nome pois qualquer nome serviria, já que nenhum serviria.
pois qualquer coisa teria a mesma mudez vibrante. nome ou pessoa, qualquer coisa ali perderia a transendencia, tanto que eu só via fatos e coisas sem nomes.
então o teto arredondado da catedral tinha embaixo um oratório.
Mãe: matei uma vida, e não há braços que me recebam agora e na hora do nosso deserto, amém.
Mãe, tudo agora tornou-se de ouro duro. mãe, que me mostrou a vida grossa e neutra amarelecendo.
eu estava fruindo daquilo, sangue branco que eu derramava. A barata é de verdade, mãe. Não é mais uma idéia de barata.
- Mãe, matar é proibido porque se quebra o invólucro duro, e fica com a vida pastosa.
De dentro do invólucro está saindo um coração grosso e branco e vivo com pus, mãe, bendita sois entre as baratas, agora e na hora desta minha morte, amém.
Eu já havia abandonado a mim mesmo - quase podia ver lá no começo do caminho já percorrido o corpo que eu havia largado.
se a barata tivesse dentes, seriam dentes grandes, quadrados e amarelos.
e meus próprios olhos também tinham as mesmas pestanas. Mas os teus ninguém toca, imundo.
eu sabia que nunca havia mudado de forma desde o tempo em que me haviam desenhado na pedra de uma caverna e ao lado de um homem e de um cachorro.
Sabia que estava no irredutível, embora se trata-se de uma ignorância da lei do irredutível.
Eu não poderia mais me perdoar alegando que não conhecia a lei - pois se conhecer e conhecer ao mundo é a lei que, mesmo inalcançável, não pode ser infringida
Pior: eu não estáva diante de uma lei a que devia obediência: eu era a própria lei ignorada a que obedecia.
tenho que cumprir a minha lei que ignoro, e se eu não cumprir a minha ignorância, estarei pecando
a barata crua me olha, e sua lei vê a minha.
tive o desejo de me refugiar na minha fragilidade
Eu tinha medo de minha nudez final na parede,
Dá-me a tua mão. Porque não sei mais do que estou falando. Acho que inventei. Mas se inventei o que ontem me aconteceu posso ter inventado toda a minha vida
entrei no inexpressivo minha busca cega e secreta.
entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, na linha de mistério e fogo.
Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia existe um espaço, existe um sentir que é entre o sentir - a materia primordial é a linha de misterio e fogo e que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
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